21 maio 2014

[CRÔNICA] Balzaquiana - a mulher de 3.0

Estamos cercados por números: RG, CPF, idade, número de filhos, quanto gastamos para nascer, crescer e morrer, quantos likes aquela foto conseguiu no Instagram, quantos amigos no Facebook – mesmo que nem sejam amigos reais, voltamos para aquele esquema antigo: contanto que você pareça bem popular e consiga muitos likes para a foto, não importa se as pessoas são amigos por quem você morreria ou inimigos disfarçados, que te arrastariam para baixo na primeira oportunidade. Ê, lê, lê.
É uma era de aparências. E de números sem fim.
Idades.

Datas
Por muito tempo, temi este dia.
Perdi a conta de quantas vezes o número me assustou. Mas ele chegou e aqui fez morada por um longo tempo.

Quando você tem 10 anos, tudo é uma brincadeira gostosa: poucas matérias na escola, mas você ainda reclama da quantidade de deveres de casa; no entanto, você chega para o almoço, termina tudo em duas horas e sai para curtir a infância com seus vizinhos, ou fica vendo Sessão da Tarde e comendo pipoca – quando sua mãe neurótica não te deixa brincar lá fora, “com medo de que se machuque”; você pode dizer besteira, que seus pais vão apenas dar uma largadinha de mão. A responsabilidade, numa escala de 10, chega a 1.


Aos 15 anos, como diria Machado, “tudo é infinito”. Dizem e comprovei: demora para chegar essa idade, mas a partir dela, o Tempo corre como uma das máquinas desenfreadas de Fast and Furious (salve Walker!). Tanta coisa acontece ao mesmo tempo, e tão intensamente! O início do Ensino Médio muda completamente a sua visão de escola – sobretudo, se você veio de um ensino básico deficiente e que visava ao cumprimento de... alguma coisa indefinida até hoje (Você sabe que passou de ano. Ponto.); o vestibular está chegando e todos parecem não falar de outra coisa – de modo que uma única prova parece ser capaz de reger o ritmo de seus estudos por três anos. Vêm: o primeiro estágio como menor aprendiz, os namoros, muito mais atividades do que na escola primária e secundária e momentos de lazer, para não pirar com tudo isso! Você tem 15 anos e ainda pode dizer e fazer algumas coisas idiotas – porém as consequências de algumas decisões podem ter peso no futuro. A responsabilidade atingiu o índice de 3 em 10. 

Aos 20 anos, tudo volta a ser uma farra. Você está na faculdade, ou bem encaminhado para ela desde os 18 anos, procura um trabalho de meio período porque não pode mais depender apenas dos seus pais. Com sorte, já encontrou alguém com quem vale a pena pensar em planos para o futuro – mesmo que ainda espie através do espelho com desconfiança, um pé atrás, deixando as coisas fluírem em seu curso natural. Está preparando o terreno para seu futuro e seu nível de responsabilidade já alcançou um 5, porque o que você faz não afeta mais apenas o seu pequeno mundo juvenil: suas decisões provocarão efeitos notáveis na vida de outras pessoas como o seu namorado, noivo ou marido, seus colegas de trabalho, seus vizinhos, seus pais e irmãos.

Aos 25 anos, após terminar a faculdade, você sabe que já encontrou o seu caminho e busca a especialização para cair matando no mercado de trabalho e conseguir dinheiro para sustentar a família, que pode já ter formado. Trabalhando em período integral, ainda pensando em um Mestrado ou Doutorado, Pós-Doutorado. Alcançou o auge das experiências anteriores, mas sabe que ainda está acumulando para os dias que virão depois.

A responsabilidade chegou ao nível 8. 

Mas aí, então, finalmente, etc... Você chega aos 3.0.

Para as crianças e adolescentes ao redor, você alcançou um ponto na vida que os faz lembrar em-se de seus pais e tios: será sempre alguém mais velho, e eles nem imaginam como terão sorte, neste mundo, de chegar até onde está. 
Para seus pais, tios e avós, você é a lembrança viva dos melhores anos de suas vidas, o ponto alto da independência, estabilidade financeira e emocional, da liberdade dentro e fora da cabeça. É a época de reunir as suas economias e fazer uma reforma na casa pequena, comprada em parcelas suaves, para deixá-la mais suaPara as revistas de beleza e comportamento do século XXI, é quando a mulher alcança o auge da beleza e do sucesso profissional.

Para você, bem, é apenas o Presente.

Você não quer admitir, porque ainda temia o número, mas é a melhor fase da sua vida. Já não precisa buscar asas para voar porque elas cresceram a ferro e fogo nas suas costas: moldadas por cada noite de estudo, em claro, para não levar bomba na faculdade; fortificadas por cada grito e xingamento que ouviu no trabalho, muitos ditos injustamente, e ameaçada por rasteiras de "amados colegas" (Afinal, o que é passar um dia sem ser chamado de demente por sua querida chefe, ou traída por uma colega de setor que quer crescer às custas da sua queda?); edificadas por cada dia de fome e frio que passou, lutando por algo melhor.

E daí, se algumas coisas aconteceram tarde demais, ou se perderam no caminho?

Que importância têm os obstáculos que se ergueram, se eles não te derrubaram?
Por que pensar nas pessoas que tentaram te fazer mal, ou conseguiram, se engoliram o próprio veneno e saíram da sua vida?
Por que pensar em algo além do seu desejo incontido de ver os rostos dos seus filhos, quando fizerem besteiras como as que você fazia aos 10 anos, e ouvir as gargalhadas infantis, que te farão perder o fôlego, inclusive jogar na sua cara que os seus pais são melhores que você?

Tudo por que lutou está chegando. Está pronto. Está aqui. Não tema as feridas e marcas, as cicatrizes fechadas que a vida lhe deixou. Não tenha medo dos novos desafios.

Embriague-se dessa nova fase, alimente-se desse ano, fortifique-se com esse o tempo que virá com o delicioso sabor do ineditismo.

Não há precedentes para sua vida, porque ela acontece agora.

Viva este momento.
Sorria e ame como se fosse o primeiro dia.

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1 Comentários:

  1. tyz! feliz aniversário atrasado hihi!
    que venham muitos livros e tudo de melhor pra voce. e muito, muito amor!
    beijos

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