19 julho 2015

[DOMINGAS] O Ar da Graça I

Possivelmente, o aspecto de que menos gosto em velórios e no processo de morte é que, em poucas horas, o que menos conta ali é o morto. O povo vai dando o ar de sua (des)graça, do alto de seus óculos escuros, ternos e vestidos pretos, carregando um saco de pêsames até a cadeira onde está o familiar, literalmente, causando o máximo que puder. As lamúrias sinceras mal chegam ao espaldar do assento.

Pouco depois, as panelinhas já se formaram, por afinidade, para observar os outros grupos e ver quem está chorando demais ou de menos. Alguma alma simplória, querendo, talvez, quebrar o clima lúgubre, vem com uma piadinha do cotidiano. Em dez minutos, está armada a algazarra, que, misturada aos gritos lacrimosos da família, é abafada dentro do próprio grupo.

Um comenta o que comeu e não deveria ter comido no café. Outro diz que estava com a família de luto desde cedo, sem almoço, cobiçando umas bananas que vira sobre a mesa do finado. Outro, ainda, fala dos próprios sapatos, que não eram adequados à ocasião, nem a roupa. E, pensando bem, aquela roupa não era mesmo adequada para aqueles sapatos!


Ainda encontram tempo e espaço para discutir o dia de trabalho, ou comentar que fulano aparece em todo velório, ou que cicrano engordou. E, ainda, há quem apareça para criticar as atitudes e a vestimenta da viúva, o inchaço no seu rosto, a quantidade de calmantes que tomou e o decote inadequado. As pessoas conseguem encontrar um número de inadequações incrível, nos outros.

Ainda há os desclassificados na prova de caráter, que vão - pasmem - paquerar durante a cerimônia e ainda se ofendem quando você os ignora! Dois minutos depois, estão "atirando"  para outro lado - o que é bem irônico, considerando a ocasião.

O que mais me desconcerta, porém, são as risadinhas. Não vejo velórios como ocasiões para piadas e risinhos. Geralmente, fico no canto, guardo a situação, porque algo em mim desliga o botão da alegria quando há alguém sofrendo, no mesmo ambiente que eu.  Nem por descontrair, nem por educação. Não gosto de ver gente chorando. Nunca sei o que dizer, nessas horas.

Apenas uma palavra parece constante, em linguagem universal, e dispensa predicativos porque tem sentido completo por si só. Uma palavra que você compreende quando alguém aponta o indicador para o céu, agradecendo, ou revira um olhar indagador, lacrimoso, questionando um porquê: Deus.

Muita gente ainda pergunta porquê. É uma perda horrível para nós, aqui embaixo, mas um grande ganho para o Pai, acredito. Enquanto ficamos, vamos pagando as dívidas. Até que chegue a honra do Chamado.

Finalizo meus comentários ainda surpresa. Poucos percebem que ali, cercados pelos risinhos e comentários inoportunos, e pelo ar da graça de gente totalmente estranha, determinadas pessoas, um determinado grupo de pessoas - o das mais interessadas - está apenas começando a pior semana de suas vidas.

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