26 julho 2015

[DOMINGAS] O AR DA GRAÇA II

Os filhos encaram as pálpebras fechadas, que cheiram a flor, e voltam alguns anos no tempo. Mesmo aos trinta, piscam os olhos e não conseguem descolar da retina a imagem daquele cara de bigode segurando a bicicleta para que pudessem pedalar sem cair. Ou do cara de bigode que soltou a bicicleta, esperando que reagissem e rezando para não se arrebentarem lá na frente.

Uns chegam e dizem Uma hora estamos aqui e, na outra, não. Vê como a vida não é nada! Pois digo que a vida é tudo. Tudo em poucos segundos. E cada movimento do ponteiro conta com uma força hercúlea para seguir. Ou pensa que os ponteiros se movem para a frente só porque é a função deles?

Ela é a última a dar as costas e, possivelmente, a primeira a voltar para casa. Em algum momento, os músculos do peito dão aquela guinada esquisita, forçando-a a acreditar que vai encontrar, na porta de casa, os olhos que deixara sorrindo, quando saiu para o trabalho.

Vai lembrar daqueles olhos no dia em que se encontraram; os mesmos que viu durante a primeira dança e segundos antes do primeiro beijo, os mesmos do dia do casamento, o mesmo olhar da despedida, na manhã anterior: o olhar de quem amou. Então, virá o baque outra vez, como se estivesse apenas começando. Porque lágrimas não secam: uma hora, apenas cansam de cair.

Ela reluta a voltar ao quarto, à ideia de acordar na cama vazia, subitamente espaçosa demais, desproporcional àquele cômodo. O porta-retratos vai mofar sobre o criado-mudo e ela ainda vai chorar outras vezes, quando abraçar, no ar, o espaço que era dele. Ela ainda aposta no surreal, vai acreditar nisso por muito tempo, antes de perceber que realmente aconteceu, e que hoje é apenas o primeiro dia de muitos terríveis.

No meio de tantos pensamentos confusos, envoltos em uma aura de sonho, surgem amigos, parentes distantes, colegas de trabalho, pais, filhos, vizinhos, conhecidos. Sete bilhões de pessoas poderiam aparecer, mas o único cuja companhia ela deseja, no momento em que mais precisa de força, agora caminhará de pés descalços, em outra direção, ao lado de outros parentes e amigos, até que chegue o momento de rever os olhos daquela que amou.

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2 Comentários:

  1. Ai que conto triste, nem quero me imaginar nessa situação, é muito triste. Você escreve muito bem minha amiga! Quero muito ler outros contos seus. Um grande abraço!

    www.laerte-lopes.blogspot.com

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  2. Este foi escrito em homenagem a uma boa amiga minha, que sofreu uma perda, em 2009.
    Obrigada, amigo =*

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