05 julho 2015

[DOMINGAS] Retalhos


Hoje, flagrei-me sorrindo ao ter o prazer de receber a correspondência em casa pela primeira vez em 2013 - ano turbulento, em que encontrei nosso carteiro apenas de passagem na rua, esporadicamente. Todos no Correio já me conhecem como "A menina do Impresso Normal", por razões óbvias, muito embora tenhamos tido um hiato entre nossas promoções, devido às novas normas da CEF. Porém, receber em casa, ainda que tenham sido as fidedignas contas, foi um prazer enorme.

Melhor ainda foi poder entregar a correspondência a um carteiro, meu pai. Ele trabalhou nos Correios durante muitos anos, deixou a profissão, mas eu não acredito que ela o deixou. Isso porque acredito que todos que conhecemos e tudo que exercemos com dedicação, com afinco, na vida, deixam marcas profundas: as pessoas que amamos, a casa que construímos, os estudos com que nos preparamos, os empregos que nos moldaram até conseguirmos formar a consciência de uma vocação, de uma profissão.

Eu nunca quis ser professora, embora já me perguntassem se eu não tinha vontade de ensinar. Alguns diziam que eu poderia ser "algo mais", e eu até toparia, se acreditasse que havia alguém, abaixo de Deus e dos meus pais, que eu respeitasse e adorasse mais do que os meus mestres. Mas isto não vem ao caso, agora.

Não acredito que deixamos as nossas marcas para trás.
Eu, por exemplo, já fui balconista de Casa Lotérica, tendo de atender dezenas de pessoas em um balcão mais extenso do que deveria ser, fazendo jogo de bicho, vendendo TeleSena e doces, e criando boa disposição para lidar com diferentes facetas do ser humano.
Já fui atendente de lan house durante o horário de almoço da minha amiga, horas que evoluíram para um turno completo tomando conta de dez máquinas, escaneamentos, digitações, venda de doces e, curiosamente, aprendendo a lidar com pessoas.
Já fui vendedora independente de trufas de chocolate e outros jogos de sorte, trabalhei em lojas de confecções e calçados no fim do ano - exaustivamente, para ganhar uma mixaria.
Já fui secretária, preparando a documentação de alunos de faculdade particular, muitos deles que nos julgavam suas escravas - porque pagavam uma cara mensalidade, não acreditavam que deveriam esperar o prazo estipulado pelo regimento da própria faculdade, para receber as documentações. Alguns deles conseguiam.
Já fui atendente de Clínica, onde a imagem contava mais do que seu trabalho e as pessoas eram descaradamente usadas, como se fossem coisas. Talvez ainda sejam, não posso saber.
Uma coisa eu sei: trabalhei lidando com muito tipo de gente, fiz muito jogo de sorte para os outros e vendi muito doce.

Eu não fiquei rica realizando nenhum desses trabalhos; não descobri uma vocação ou ganha-pão em qualquer deles; não me vejo realizando-os novamente - a não ser que seja necessário, porque não sou soberba, e sei que a gente sempre acaba precisando de algo ou alguém que conheceu no passado, então está em aberto; mas, ao mesmo tempo, sei que cada um desses trabalhos, desses momentos, permanece comigo, e eu, neles. Somos uma colcha de retalhos, recortes de experiências passadas - Retalhos que, bem costurados, formam um lindo tecido, de proporções adequadas ao nosso mundo desejado.

Nada do que aprendi em cada emprego, a cada dia em que acordei cedo, pra partir para a luta, foi em vão. Especialmente porque o meu aprendizado maior foi quanto ao tratamento do material mais complexo e difícil de se trabalhar, que passa anos sendo burilado e nunca está completo, que Deus colocou no mundo, em Sua Graça e Sabedoria, para que alcançasse a maior parte de seu aprendizado através da tentativa e erro: o "bicho homem".

Tenho o sangue da arte e amo-o. Não de família: é um sangue que brotou do coração. Canto, conto, escrevo aqui, componho ali, tenho prazer em viver a arte. Até sonhei em ser escritora, e viver disso no Brasil. Hoje vejo que é necessário muito mais do que o sonho para chegar lá: é preciso dar passos largos e firmes, e ter um chão seguro onde pisar, antes de alçar voos mais altos. Afinal, para chegar ao alto, precisamos de um bom impulso. 

Por fim, a profissão de que mais fugi, por já ter acreditado que jamais seria capaz de me igualar aos meus mestres, que jamais saberia o suficiente a ponto de poder instruir alguém, é a que exerço hoje. Você pode escapar de guerras, esconder-se de pessoas que quer evitar, pode até tapear a morte uma vez, mas não pode fugir do futuro que está preparando para si mesmo.

Não tenha vergonha do seu trabalho, não renegue as suas origens. Tudo que está vivendo hoje, mesmo que não pareça ser o emprego mais luxuoso do mundo, mesmo que ainda não tenha alcançado o ponto mais alto da sua vida - segundo a visão que tem agora - tem o potencial de formar uma base sólida para o que quer construir no futuro. É o seu trabalho, e ele o dignifica. É a sua jornada, que o endurecerá para os próximos percalços. 

O fruto do seu trabalho é seu, e ninguém pode tirá-lo de você. A experiência acumulada o ajudará a ver melhor a estrada adiante. Agarre o momento, viva o que é seu e deixe seus os passos serem guiados pelo caminho de pedras: ele poderá ser longo, e talvez nunca tenha um fim. Quem sabe? Seus pés ficarão calejados, sim, mas aguentarão as rochas, e se tornarão tão resistentes quanto elas. Use os seus retalhos para forrar os próximos passos. Quando chegarem os solos de areia, seus pés sentirão como se tocassem nuvens.

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