25 julho 2015

[RESENHA] Até mais, e Obrigado pelos Peixes (Douglas Adams)

Arthur Dent já fez de tudo e mais um pouco, na vida - incluindo ver seu planeta ser destruído e depois saber que ele existe de novo, viajar pelo universo, conhecer as criaturas de formas e nomes mais estranhos. Porém a Terra não é exatamente a mesma... O que aconteceu? Com este livro, vem mais uma oportunidade de sermos apresentados ao fantástico mundo de um autor tão sarcástico quanto foi inteligente, e de poder embarcar em aventuras interestelares super divertidas, com o diferencial do romance em suas entrelinhas.
ADAMS, Douglas. Até mais, e obrigado pelos peixes. Tradução de Marcia Heloisa Amarante Gonçalves. São Paulo: Arqueiro, 2009. 203 p.
Skoob FanPage (Livro)
Skoob FanPage (Autor)


Mais um livro de Douglas Adams que nos prende pelo humor gostoso e boas tiradas, que reúnem um sarcasmo invejável, críticas à sociedade inglesa, aos editores de publicações, cartões de crédito famosos, entre outras pessoas e instâncias - sempre reforçando seu proclamado "ateísmo", no qual eu ainda não acredito. Senti falta de Marvin durante todo o livro, porque as melhores sacadas sempre são as suas. Um robô maníaco-depressivo não é algo que você veja em outros cantos do Universo. Ah, Arthur se apaixona. De verdade. Dessa vez, por uma mulher misteriosa que ele conheceu na estrada. Ela era tão linda que o fazia perder o fôlego, mas havia algo de errado, e ele ainda precisava descobrir.
 
Não. Nada de jogos. Ele a desejava e não dava a mínima se alguém percebesse. Ele a desejava, definitiva e absolutamente, queria estar ao lado dela, adorava-a e tinha tantas coisas que queria fazer com ela que não haveria nomes suficientes para todas. (...) Era melhor colocar o disco de gaita de foles de uma vez. E ligar para ela depois. Ou ligar para ela antes, que tal? (p. 83)

Levando em conta que, nos volumes anteriores, a ficção científica em si sempre representou um ponto forte, aclamado, na escrita de Adams, neste volume, a FC cedeu um espaço generoso ao romance, de forma que alguns leitores classificaram o livro 4 como uma comédia romântica. Há cenas fofas e outras nada inocentes no livro; uma trama que, se não alcançou o ponto alto do nível Adams, foi gostosa de ler. E, como sempre ocorre na Arqueiro, uma revisão impecável, além da edição linda. Douglas continua com o seu tom filosófico de questionamentos sobre a vida, o universo e tudo que nele há, fazendo-nos rir em momentos impensáveis.
Nunca antes percebera que a vida está sempre falando com uma voz que responde às perguntas que você vive fazendo sobre ela. (p. 100)

Em nenhum dos livros anteriores percebi uma crítica tão forte aos sistemas editoriais e à pessoa do Editor, sobretudo. Foi interessante imaginar as relações entre o autor e seu editor, visto que sabemos dos seus problemas com prazos, e do que os editores precisavam fazer para que Douglas escrevesse. 


Todos os livros da série deixam transparecer de forma clara o posicionamento político do autor, o que não chega a comprometer o limite da verossimilhança. A personagem Fenny, por exemplo, tem uma postura própria dela, como o Marvin, de forma que é impossível ver o autor de forma escancarada neles e, portanto, duvidar de sua consistência. Outro destaque, embora tenha custado a se revelar, foi o Wonko São, John.
Se você pegasse dois David Bowies e colocasse um David Bowie em cima do outro, depois colocasse um David Bowie na extremidade de cada braço do David Bowie que estava por cima, e daí cobrisse tudo com um roupão de praia sujo, você teria algo que não seria exatamente parecido com John Watson, mas aqueles que o conheciam na certa o julgariam assombrosamente familiar. (...) Mas o seu sorriso, quando se virava para você, era extraordinário. Parecia ser composto de todas as piores coisas que a vida pode fazer com uma pessoa, mas que, quando ele as reagrupava rapidamente naquela ordem específica em seu rosto, fazia com que você sentisse que "ah, bom, então está tudo bem." (p. 185)

O fato de eu não acreditar no proclamado ateísmo de Adams deve-se à forma como ele se refere a Deus, a Cristo e aos anjos, em seus livros. Ele não acredita na Virgem Maria ou em santos, sim, porque sequer os menciona. Mas ao passo que ainda se importava em mencionar e fazer brincadeiras, enquanto ele não era indiferente a Deus, mostrava que acreditava mais nele do que muito religioso praticante.


O livro nos faz refletir sobre a fé e a ciência, o amor, a manipulação de pensamentos e os mistérios do Universo - que substituem um ao outro, assim que o primeiro é desvendado. Faz-nos pensar no cientista como uma criança, trabalhando a coragem de falar daquilo que está vendo acontecer - para não correr o risco de ver apenas o que espera ver. É fato que Adams tinha muita fé na ciência.


Esta é uma coleção pela qual sou apaixonada, embora não seja perfeita. Há momentos que nos deixam impacientes na leitura, sim; não concordo com tudo que Douglas escreveu; já virei noites agarrada com ele e fui dormir pensando em alguma das maluquices que criou. Mas adoraria que ele estivesse vivo para que pudéssemos trocar uma ideia bacana sobre suas criações. Aos fãs da FC, vale a pena ter na estante!






Comentários via Facebook

0 Comentários:

Postar um comentário

Obrigada pela presença e participação! ATENÇÃO: Todos os comentários são moderados. Aqueles considerados inapropriados à nossa política serão automaticamente excluídos. Comentários anônimos não serão aceitos.