10 julho 2015

[RESENHA] Lucíola (José de Alencar)

O pernambucano Paulo não esperaria que sua chegada ao Rio de Janeiro pudesse colocar sua vida de pernas para o ar daquela maneira. Tudo mudou depois que ele a viu. Lúcia, a cortesã mais rica do Rio de Janeiro, de personalidade forte e gostos únicos, não se deixava prender a nenhum homem, até conhecer Paulo. Desde que se encontraram, ela se vê totalmente entregue; tudo o que quer é permanecer junto dele. Essa paixão ganha fama na Corte, no Rio de Janeiro. Os comentários chegam aos ouvidos de Paulo e o incomodam profundamente, preso que está no dilema: deveria terminar seu relacionamento para manter a imagem de bom moço, diante da sociedade carioca, ou enfrentar tudo por amor a Lúcia?
ALENCAR, José de. Lucíola. Obliqpress. Google Play Livros, 1862, 188 p.
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LUCÍOLA é um dos primeiros romances de Alencar. Seu lançamento deu início à série PERFIS DE MULHER, que viria a ser completada com DIVA (1864) e SENHORA (1875), livros que desnudam a alma feminina, sonhos e temores, amores e dissabores.

Palmas para a iniciativa da Google de relançar inúmeros clássicos no formato e-book, através do Google Play Livros, e de forma gratuita. É uma solução interessante, para quem tem pressa de conhecer uma história de direito público (com mais de 100 anos), mas nem tanta pressa para comprar a edição física de alguns volumes. Estou descobrindo um prazer secreto nos recursos que a leitura digital oferece. A possibilidade de ler em qualquer lugar, sem ter de carregar meus clássicos preciosos, já é um diferencial! Mas o livro físico é, sim, essencial. Quero fazer uma compra grande, de preferência, de alguma editora que se propuser a relançar todos os grandes clássicos nacionais, como a Aguilar um dia fez. Alencar tem lugar certo na estante.

Muitas vezes, lê-se não por hábito e distração, mas pela influência de uma simpatia moral que nos faz procurar um confidente dos nossos sentimentos, até nas páginas mudas de um escritor. (p. 114)

Lúcia é um personagem e tanto. Complexa, divinamente construída por um homem ciente da alma feminina. Plenamente consciente de seu poder de sedução e da beleza que a mantém no tão cobiçada entre os homens, naquela vida, ela tem com nojo de si, pelas mesmas razões. Em meio às suas declarações, não há muito o que possamos comentar, apenas sentir. A beleza da narrativa de Alencar.

Quando me lembro que um filho pode gerar das minhas entranhas, tenho horror de mim mesma! (p. 145)
Em pesquisa sobre o nome "Lucíola", vim a encontrar vários relatos sobre este ser o nome de um tipo de vagalume, que consegue emitir luz, mesmo que esteja coberto pela lama dos pântanos onde vive. Certamente isto reflete a natureza pura de Lúcia, que contrasta com a vida suja da prostituição. A impressão que essa mulher deixou em mim foi a melhor possível. Ela é frágil e forte, ao mesmo tempo, e conquistou seu lugar entre as melhores protagonistas da Literatura Brasileira.

Livros clássicos podem ser severamente criticados pelos mais jovens, tachados de "chatos" ou "difíceis", mas são importantes para termos conhecimento de sociedades prévias à nossa, para sabermos como as pessoas viviam, pensavam e amavam, séculos atrás; como se vestiam, o que costumavam fazer, onde trabalhavam e qual era o seu conceito de família, entre outros. Surpreende-me a forma como uma cortesã era tratada. O cotidiano de uma prostituta de luxo da época é impressionante. E a forma como Paulo se aproximou sem interesse, o que foi inacreditável para ela, reforçou o caráter envolvente, forte e humano do livro. Firme, como sua protagonista, e doce como a verdadeira natureza dela. 

Encontrei passagens deliciosas, para uma narrativa do século XIX. Gosto de narrativas mais cheias, encorpadas, porém, ao mesmo tempo, rápidas. Com menos "blábláblá", porém, adorei a leitura e consegui fluir. A obra é incrível, e você não consegue acreditar a quantidade de coisas que acontece no final. Conflitos e decisões, amor e ódio, impossível largar!
Se eu ainda tivesse junto de mim todos os entes queridos que perdi, disse-me com lentidão, veria morrerem um a um diante de meus olhos, e não os salvaria por tal preço. Tive força para sacrificar-lhes outrora o meu corpo virgem; hoje depois de cinco anos de infâmia, sinto que não teria a coragem de profanar a castidade de minha alma. Não sei o que sou, sei que começo a viver, que ressuscitei agora. Ainda duvidará de mim? (p. 161)

Lucíola é para ficar na memória.

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