01 outubro 2016

[Resenha] A Metamorfose (Franz Kafka)


A Metamorfose é a mais longa e célebre novela de Franz Kafka e uma das mais importantes de toda a história da literatura. O texto coloca o leitor diante de um caixeiro-viajante [o famoso Gregor Samsa], que desperta, um dia, na forma de um inseto monstruoso. A partir daí, a história é narrada com um realismo inesperado que associa o inverossímil e o senso de humor ao que é trágico, grotesco e cruel na condição humana - tudo no estilo transparente e perfeito desse mestre inconfundível da ficção universal. (Skoob)
KAFKA, Franz. A Metamorfose. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
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Um livro não tem que ser perfeito ou agradar a todos, para mexer com você. E Kafka revirou os cantos mais obscuros da minha mente durante a última noite de sono - o tempo que me permiti dormir sobre a leitura concluída e entender melhor as sensações ela me causou. O livro é tão poderoso que já se inicia pelo CLÍMAX:
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. (p. 13)
A METAMORFOSE é dividido em 3 partes, e cada um reflete um posicionamento da família perante o novo Gregor: no primeiro capítulo, vemos que a família entra em choque, não sabe o que fazer sobre o problema; no segundo, existe a etapa de uma possível aceitação; no terceiro e último, Gregor se torna um fardo, um peso para a família, e é desprezado. Ele, que era o provedor da casa, agora era considerado um parasita, inútil, e dispensável.

O livro é curto, apesar de ser a novela mais extensa de Kafka. Ela foi escrita em 20 dias, no ano de 1912, quando ele tinha apenas 29 anos de idade. A despeito do meu ritmo de leitura lento [mais por causa de questões do cotidiano do que pelo livro em si], não foram necessárias muitas páginas para Franz Kafka criar uma das novelas mais impressionantes, filosóficas e [por que não dizer?] subversivas da Literatura. O livro é, de fato, perturbador, e diferente de tudo que eu já havia lido.

O caixeiro-viajante Gregor Samsa acorda em uma manhã não definida para um dia típico de trabalho, mas algo acontecera: ao despertar, percebeu ter se transformado em um inseto gigante e asqueroso, repugnante, nojento. A partir desse momento, todo o seu convívio com a família e a relação com seu trabalho mudam. Características das pessoas que o cercam são exploradas com mais clareza do ponto de vista dele. E, na verdade, com clareza demais.

Um dos pontos que me fez estranhar a história foi o aspecto kafkiano de absorver com a maior normalidade possível o elemento fantástico, o absurdo, como se não representasse razão de choque. É admirável o modo maquinal, frio e científico com que Gregor aceitou sua nova condição; no lugar dele, eu teria tido um ADP! Imagine acordar transformado em um besourão? [Não o vejo como uma barata]. Digamos que Gregor se assustou com a situação, mas é como se ele tivesse vivido na expectativa de que algo assim aconteceria. Ah, mas não importa o que lhe sobreviesse, o maior problema é que aquilo se interpôs às questões mais prementes de seu cotidiano: o trabalho que detestava e o sustento de sua família estagnada. Um acontecimento de dimensões kafkianas (trocadilho proposital) se abate sobre a vida de Gregor, e ele pensa no trabalho...

Existem, na obra, os ares da alienação humana e da aceitação inquestionável; o afastamento do elemento "obsoleto" ou "impraticável"; o sombrio e a frieza humana. Talvez a naturalidade com que Gregor aceitou tudo aquilo seja apenas uma sombra da forma automática da vida que ele adotou. Tem um senso de responsabilidade que excede o limite humano - outro ponto que atraiu a minha atenção; nunca sai para se divertir e a única coisa que tem para desopilar é carpintaria. Essencialmente, vive para a família, e esqueceu de si até o momento em que um problema seu tornou-se mais evidente.
... ainda não renunciei por completo à esperança: assim que juntar dinheiro para lhe pagar a dívida dos meus pais - deve demorar ainda de cinco a seis anos - vou fazer isso sem falta. Chegará então a vez da grande ruptura. Por enquanto, porém, tenho de me levantar, pois meu trem parte às cinco. (p. 15)
A METAMORFOSE é um livro genial e pulou para a minha lista do "Você tem de ler antes de bater as botas!". Há que se reconhecer o brilho autônomo da escrita kafkiana. Ele me fez refletir bastante, especialmente, com seu final. É uma leitura que pode ser feita em um dia, e recomendo para todos os públicos.

NOTA: 5/5

Comentários via Facebook

2 Comentários:

  1. Clássico. Mas, é, eu nunca li, apesar de todos falarem muito bem sobre ele. O tema me agrada e muito, até porque é o tipo de história que pode te deixar refletindo por dias. Mas eu nunca fiquei desesperada pelo livro, então por isso ainda não li. Algum dia com certeza, mas não é nada urgente.

    queridos-sapiens.blogspot.com.br


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  2. Adorei sua resenha, realmente você colocou os pontos em seus lugares.
    Eu li esse livro, exatamente essa edição *-*, quando era adolescente e não sabia nada da história, nem li a apresentação, coisas de jovens...
    E a história me surpreendeu de uma forma marcante. Esse livro é daqueles que deve-se ler e reler depois de uns anos pra ver cada vez mais sobre ele.

    Gostei muito de como você colocou os pontos principais da obra, as características e tudo o mais. Normalmente quando alguém fala desse livro, fala, ah é sobre um cara que vira uma barata, tirando toda a profundidade da obra. Vi isso ainda num programa de tv ou melhor numa novela.. super sacanagem... e mancadas dos autores, quem le ou ouve alguém dizer isso acaba por desmerecer a obra.

    Vim ler sua resenha por causa da capa, que é o livro que tenho, porque estava entre seus top 10, o que me fez admirar muito o blog rsrs e por curiosidade. Eu andei meio desleixada com os blogs que sigo e agora que organizei eles, estou tentando manter uma rotina de checagem rsrs, passar e dar uma olhada, então espero que me perdoe se essa possa ser minha primeira vez no blog, mas que eu sigo ele eu sigo rsrsrs.

    Bjus e até uma próxima ;)

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