03 julho 2015

[Resenha] O Vale dos Anjos (Leandro Schulai)

O Vale dos Anjos - A morte tem o poder de separar um amor? Para muitas pessoas a frase “até que a morte os separe” é a afirmação de que morrer é o fim de tudo, inclusive para o amor. Mas se fizermos essa pergunta para o grego Dimitris Saloustros a opinião será bem diferente. Com uma morte precoce e uma promessa feita à sua amada o rapaz parte em busca do desconhecido Vale dos Anjos, local onde se encontram as maravilhas do paraíso e o medo e apreensão das oito prisões, em busca de cumprir o seu feito. Auxiliado pelo anjo guia de enterro Obelisco cujo humor o ajuda nos momentos difíceis, pela cupido Anne cuja beleza é incomparável e treinado pelo misterioso mestre Ramirez, Dimitris parte em uma jornada recheada de grandes belezas, pessoas marcantes e mistérios complexos que o farão perceber que nada é por acaso e que sua estadia nesse misterioso local já era aguardada a muito tempo . . .

SCHULAI, Leandro. O TORNEIO DOS CÉUS. 2 ed. São Paulo: Livrus Editorial, 2004, 384 p.  (O vale dos anjos v. 1)


O livro me proporcionou uma leitura bem mais divertida do que eu esperava. Pelas sinopses, acreditava que seria um drama. Durante a leitura, é possível levantar questionamentos importantes, como por exemplo: o quão longe se vai por amor? 
O Vale dos Anjos reúne elementos de Cidade dos Anjos, com um toque do Torneio de Artes Marciais de DBZ. E isto deu um dinamismo enorme à obra. E pode ser uma obra de literatura fantástica, mas propõe algumas questões que eu, particularmente, considero polêmicas e vou citar durante a resenha. Ela será grande, então, paciência, caro leitor!



Dimítris e Mariah Saloustros formavam um casal perfeito e apaixonado. Casados há dois anos, moravam na Grécia e viviam muito bem juntos, encontrando felicidade em coisas simples, como passar fins de semana procurando itens para a casa, comemorar o Natal numa data diferente da tradição grega, contar estrelas e o número de horas que o sol ficava no céu, nesse feriado. Ele, um romântico; ela, 
uma bela jovem de família inglesa. Dimítris nos cativa rapidamente, com um caráter bem singular. Grego, 22 anos, empregado numa loja de informática em Atenas, não conheceu os pais biológicos, apenas o homem que o criou, Parnasos
O nosso tempo terreno tem mistérios insondáveis e questões cujas respostas podemos jamais obter. Você já olhou para uma pessoa que amava e, de um modo muito estranho, sentiu que era a última vez que a estava vendo?



Dimítris não imaginava, a priori que, no ponto onde começamos a história, ele estava acordando para o que seria seu último dia na Terra. Sua vida foi abreviada por um problema cardíaco, que resultou em um acidente do tipo que classificamos como “estúpido”, “sem sentido” e cujas reais razões, apenas ele conhecia, literalmente, no seu coração. 
O que o jovem também não sabia é que, depois da morte, sua vida estaria apenas começando. 

O grego foi recebido (durante sua passagem) pelo anjo guia-de-enterro Obelisco, de longe, meu personagem favorito na trama: um cara de capuz branco que os humanos só viam uma vez na vida. Durante sua passagem (e não antes de morrer, como diz a lenda) Dimítris viu flashes de cenas importantes de sua infância e juventude, só que acrescentadas de alguns detalhes. Aí nos perguntamos: estariam aqueles detalhes desde sempre ali e ele só se deu conta no momento da morte? 
Dentre aqueles momentos, vislumbramos a difícil relação que Dimítris tinha com seu pai, Parnasos – que, mesmo não compartindo o mesmo sangue, tinha os mesmos olhos azuis do filho adotivo, algo que eu achei, no mínimo, curioso.



Obelisco guia Dimítris para seu julgamento. Neste, seria decidido se o jovem descansaria no Paraíso ou seria encaminhado para as famigeradas Oito Prisões. Conhecemos de perto Isaac e Overlord, que cuidavam, respectivamente, da defesa e da acusação dos julgados. Também, temos o prazer de ver Malaquias, que é um dos anjos-deuses e uma figura! 
Durante o processo, algumas das melhores características de Dimítris são apresentadas. Ele não foi encarcerado e tampouco chegou perto de descansar em paz no Paraíso, mas teve um destino interessante. 
Antes de mais nada, levado por Obelisco para presenciar seu funeral e ver seus entes queridos uma “última vez”, Dimítris recebeu a chance de falar com sua esposa graças ao poder de seu amigo guia-de-enterro. Por cinco minutos, ele poderia tomar a forma humana e passaria despercebido pelos agentes do Paraíso.



Na manhã em que morreu, antes de sair de casa, Dimítris fez Mariah prometer uma coisa absurda: a de que não se envolveria com nenhum outro homem, no caso de ele morrer. Pois bem, tendo a chance de falar com Mariah mais uma vez, ele chegou a fazer uma promessa mais absurda ainda: a de que voltaria à vida pra ficar com ela!

Simples assim.

Mesmo que eu não tenha concordado com seus motivos (porque acredito que nós precisamos aproveitar o hoje e o agora enquanto TEMOS o HOJE e o AGORA, e não quando isso nos for tirado), gostei muito de Dimítris, sua determinação e seu jeito único. É algo inspirador e algumas lições ficaram comigo.



Ele detestava a solidão e o escuro.

Do tipo jeans e camiseta, Dimítris é bondoso, cavalheiro e humilde. Tem grande amor pela natureza, é sensível e sabe respeitar o espaço dos outros. É aquela pessoa que sabe o momento certo de falar e o momento de ajudar alguém apenas com a presença e um abraço amigo. Ele também é ótimo em jogos psicológicos (em outras palavras, em declarar a verdade nua e crua). 
É atrevido e diz o que pensa; causa mudanças na vida de umas pessoas (e na morte de outras): Malaquias, Obelisco e Anne que o digam. 
Dimítris tem reações naturais: é muito espontâneo e não se importa com o que vão pensar dele. Tem um toque de ingenuidade que é lindo de se ver; e ele é do tipo que não há quem conheça e dele não goste. Faz amizade onde chega, sente-se em casa em qualquer lugar e faz as pessoas se sentirem à vontade perto dele – embora seja muito curioso e faça perguntas até demais, detalhe que Obelisco notou de cara. 


Agora, sem mais perguntas, pois como lhe disse, há pouco, não tenho a morte toda para responder a todas elas. 

Por outro lado, em certos momentos, eu esperei que o grego encarasse as situações com um pouquinho mais de maturidade. Afinal, casou cedo, trabalhava firme, construía uma vida quando foi interrompido... é de se esperar que tenha algo que muitos demoram bem mais para encontrar na vida: juízo e sabedoria. Cenas como a da catraca no Japão, por exemplo, ele poderia ter tirado de letra com um pouco de topete – e seria legal de ver sua atitude. 
Ainda assim, o momento rendeu diversão!


Depois do metrô... quero evitar qualquer tipo de transporte diferente das minhas pernas.



Após seu julgamento, Dimítris é levado ao Vale dos Anjos, lugar que abriga o Olimpo, o Paraíso e as Oito Prisões, e onde se leva uma vida quase igual à da Terra. Quase. 
Existem muitas subdivisões, por data de morte das pessoas; para rever um ente querido, você precisa migrar. Há portais dimensionais no Olimpo, de onde você pode se deslocar para qualquer lugar do mundo em questão de segundos. 
Lá, Dimítris descobriu que todos podem se tornar anjos; que quando há duas pessoas com o mesmo nome na equipe, uma passa a ser chamada por um apelido; que ele só poderia ir à Terra por um período de 10 anos, se não fosse anjo; e que as pessoas têm um corpo físico, antes da morte, e um espiritual pós-morte: ao passo que a pessoa evolui, o espiritual funciona praticamente como o físico, até se habituar à nova vida. E mais, dependendo do que o atingir, o corpo espiritual pode morrer de vez e ser extinto.


- Aqui, você não é obrigado a nada, já que você veio para descansar. Quer trabalhar? Ótimo! Se quiser sair do emprego, tudo bem, entendeu?- Nossa, aqui é o que realmente podemos chamar de O Paraíso!

Dimítris percebeu que a sabedoria evolui junto com as funções desempenhadas e que há muitas castas e possibilidades de crescimento. No Vale, seus bons atos como voluntário vão render conhecimento e RECONHECIMENTO, para que possa evoluir e se tornar anjo, ou um anjo de casta mais elevada. 
Outro ponto a favor do grego é: mesmo que, no primeiro momento, tenha se chocado com a morte tão prematura, ele não foi rebelde. Aceitou a nova realidade muito melhor que outros que vieram antes dele. Tanto melhor, não é?



Um lugar com uma paisagem exuberante sendo descortinada a cada dia... Foi muito diferente essa visão do Paraíso e alguns pontos me fizeram arregalar os olhos.
Gostei muito dos limites impostos sobre as conversas entre pessoas de épocas diferentes – linhas que poderiam causar catástrofes, se ultrapassadas – como as pessoas que viveram no nosso século não poderem se comunicar com os da pré-história. Ali não importam as vestes de alguém, suas posses, funções, idiomas nativos ou seu passado. Todos são semelhantes e podem conviver em harmonia, desde que sigam as regras. Inclusive, eu ri muito com o primeiro encontro de Dimítris com Lepidus:


- Ouvi falar muito de você nos livros e na internet...- Internet, o que é isso? Onde fica?



No Paraíso, Dimítris faz outra amizade valiosa: Anne, uma cupido ruiva, de lindos olhos azuis, beleza estonteante e com uma história que guarda tanto mistério quanto sofrimento... e que só descobrimos mais para a frente. Ela orienta as pessoas nas questões de amor, e não apenas o passional. E, supostamente, não poderia namorar. Supostamente. 

Obelisco é muito divertido e cheio de graças, especialmente ao lado dela. Meu capítulo favorito foi o 8, quando vimos mais de perto como era a relação entre eles. Ele sempre leva as coisas no bom humor – e saber da vida dele na Terra explica muitas atitudes.


Existem amores que não acabam com a morte...

Super recomendo!






ANÁLISE (SPOILERS!)



I) Se duas pessoas realmente se amam, uma deixa a outra livre para que fique ou volte por vontade própria. É justo forçar alguém a se apegar a uma promessa como a que Mariah fez? Considero, no mínimo, cruel que a pessoa se sinta impedida de dar um novo passo e seguir com sua vida porque se agarrou a uma obsessão, ou a uma tentativa que pode ser bem-sucedida ou não. A não ser pela ligação entre eles, que é tão forte, como Anne reparou...


- Vocês dois têm uma conexão muito grande, eu nunca vi isso!- Nós dois somos um.

II) A continuidade das funções que se realizava na Terra. Vale a pena continuar apegado a uma realidade que já não é sua, às pessoas e coisas terrenas, agora que a sua alma tem a chance de evoluir espiritualmente? Isto não pode fazer bem a quem está aqui ou a quem está lá. Se fôssemos para permanecer juntos, não seríamos capazes de viver para sempre? 

III) Ciente de todas as consequências, Dimítris não pensou duas vezes antes de topar uma forma ilegal de incorporar a forma humana e voltar à Terra, mesmo abusando da condição de um anjo/semideus. Será válido arriscar a eternidade por uma fração do tempo que, comparada àquela, parecem segundos? E mais... num Torneio de que devem participar 2 BILHÕES de candidatos? (E isto não é uma hipérbole)


Não desista do seu sonho, pois se todos pensassem somente nos números, ninguém participaria.


IV) É possível uma pessoa morrer de tristeza? Definhar sentindo aquele tipo de agulhada incômoda no peito, aquela dor que não passa? Sim, já vi acontecer (só que foi um tipo de amor diferente - uma mãe, que se foi alguns dias depois de perder o filho) e não é algo bonito de se ver: é triste, doloroso e é algo que você certamente não vai querer presenciar nessa vida. Lembrei desse caso quando descobri a razão da morte prematura de Anne, aos 21 anos.



V) 
XAMÃS E SENSITIVOS. 
Engraçado, os xamãs (que incorporam) e sensitivos (que ouvem e psicografam) já estão de tal forma habituados ao contato com espíritos que nem se assustam mais. Achei interessante sua função na história. É muito bonito imaginar alguém que cede parte de sua vida a uma missão espiritual linda como esta. 



VI) 
O TORNEIO DOS CÉUS – Treino e Eliminatórias. 
Num estádio de proporções fenomenais, que faz o Coliseu de Roma parecer uma arrumação bonitinha de Lego, um evento permite a união de embates corporais e energia angelical e promove a chance de alguém ascender a anjo/semideus. Apenas uma vaga. Naturalmente, seria uma briga para vencer ou vencer.


Desafios nunca faltarão.

Eu simplesmente amo alguns mistérios da vida (e, no caso de Dimítris, da morte): quando você acha que não há mais saída, que ninguém pode ajudar, que está tudo perdido... enquanto permanecer na fé e mantiver seu desejo firme e forte... Vai surgir um modo, uma saída. 
E assim, apareceu o ser de capuz que encaminhou Dimítris para o velho Mestre Ramirez – o homem que ensinou o grego a ... Ser um dos favoritos do Torneio. Entramos na ação, de fato, no capítulo 14, quando Dimítris começou a treinar e, com aquela determinação característica dele, em apenas um mês, já realizava proezas, como bater recordes de Brian, o outro pupilo de Ramirez. 


O período de treinamento de Dimítris na mansão me lembrou o tempo que Goku passou treinando com Mestre Kame e Kuririn – quando o pequeno sayajin conheceu aquele que seria seu melhor amigo. Mas, antes disso, houve competitividade, inimizade e certa dose de inveja porque Goku e Dimítris mostraram poderes superiores em pouco tempo. 

Imaginando a relação entre o grego e Brian e lembrando a reação de Goku quando da primeira morte de Kuririn, depois da amizade consolidada, penso: algumas pessoas perdem tanto tempo com ciúme, em vez de aproveitar cada minuto da amizade e da convivência para crescer e vencer falhas, mirando-se num bom exemplo! 
O embate entre os pupilos do Mestre Ramirez terminou exatamente como imaginei: o resultado mais adequado, dado o poder de cada um e o desejo que tinham de participar daquele evento.



Eu já disse que sou fã de Obelisco? 
Quando olho para a capa do livro, imagino a arena do Coliseu do Torneio, vista de cima: a esfera gigantesca, de onde os participantes eram observados em ação; na parte superior, a larga abertura representando todos os candidatos; e abaixo, a estreita faixa por onde só passariam os vitoriosos (muito embora Dimítris e seu caráter diferenciado façam questão de levar todos pelo caminho dos vencedores). 
Apesar de todo o mundo ter sido criado, faltava amor aos elementos, e apenas isso faria com que todos os outros pudessem viver em harmonia. 
Fiquei feliz, mas não surpresa, ao descobrir o poder de Dimítris, porque já suspeitava dele. Surpresa mesmo eu fiquei quando outras habilidades se mostraram no evento: aquilo, eu não esperava. É natural que algumas pessoas tenham inveja dele.



Controlar a rota do poder é muito útil, mas o poder da espada do Tempo é incrível! Vemos aqui a importância do treino na vida de alguém que pensa ser eternamente incapaz de algo porque não consegue realizá-lo AGORA. Treinar é aperfeiçoar.  
O bom de eventos assim é que nunca falta o que fazer, o que assistir, aonde ir. Sempre há alguma partida, uma luta e a chance de observar em ação seu próximo adversário. 
No caso do embate de dois adversários que pertencem ao mesmo elemento, era de se esperar uma luta grandiosa. Eu adoraria ver no cinema a cena do F3 formado dentro da arena! Tornados, simplesmente, me apavoram mais que furacões, porque são verdadeiros monstros que a gente pode ver e não pode vencer.



Onde está Parnasos?

E por que Cronos anda ausente há 20 anos?

Um dos dois será o homem misterioso que está tão interessado em Dimítris?

O Torneio verá Obelisco e Dimítris unirem suas forças, já que isso seria muito, mas muito legal de se ver?



PONTOS... 
A revisão. Temos aqui uma história incrível, com alguns trechos cuja ordem eu alteraria, e alguns termos, que me deixaram um tantinho confusa; preciso reler a história, para ter certeza de que li certo como as coisas se revelaram e se desenvolveram. 
Emoção de fim de capítulo. Sabe aquele gancho que te faz até perder o sono e não dormir direito, só pensando no que vai acontecer depois?



Onde existe amor, todas as possibilidades de crescimento já vivem e têm plena condição de se desenvolver. É como andar de bicicleta: depois que você enxerga e entende, quando vivencia aquilo, não desaprende: só melhora. Se sumiu, não era amor desde o início. Nada neste mundo se espalha de forma tão rápida ou cria raízes tão profundas quanto o amor: as pessoas só precisam perceber isto. 
E, mesmo que de uma forma obstinada como a do nosso protagonista, creio que Dimítris propôs o mesmo: que não há mesmo limites para um coração apaixonado.

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