21 julho 2015

[Resenha] Sombras de Reis Barbudos (José J. Veiga)

Uma fábrica misteriosa e poderosa conhecida como "Companhia" instala-se na cidade de Lucas, e impõe inúmeras regras de conduta e comportamento à população. A fábrica não pode ser contrariada ou desobedecida. Ferramentas de controle são utilizadas, espalhando pânico, medo, terror e desconfiança. Ninguém mais pode viver, amar, sonhar... Voar! Realismo mágico autenticamente brasileiro, aguardando a leitura.
VEIGA, José J. Sombras de reis barbudos. 26.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,  2004, 144 p.
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As pessoas falam muito de felicidade, se atropelam para serem felizes, mas poucos se interessam pela felicidade dos outros. É um erro porque a felicidade de um beneficia a todos. (p. 20)
 
Dependendo do que você entende por spoilers, esta resenha pode contê-los.
Conheci o livro por intermédio da minha professora de Teoria da Literatura e por ocasião do nosso projeto de pesquisa sobre o insólito, o realismo mágico e as distopias. Foi uma surpresa maravilhosa encontrar um livro autenticamente nacional, que surgiu entre as minhas leituras como quem não quer nada, resolvi comprar e que conta com um narrativa tão boa quanto a nossa Literatura pode produzir. Vejam o nosso passado: nosso país é o berço de Machado, Alencar, Raquel, Vinícius, Veríssimos, Braga, Rey, Veiga... Para começar! Nada devemos a quem quer que seja.

O livro é narrado por Lucas, um homem que conta um recorte de sua infância no interior, quando recebe a visita do popular Tio Baltazar - que trouxe, na bagagem, as ideias para formar a tal "Companhia", uma fábrica que viria a transformar a vida dos cidadãos daquela pacata cidade.

O livro dialoga com as distopias quando retrata as imposições que a Companhia impôs aos habitantes daquela cidade; esta foi cercada por muros; as pessoas eram vigiadas e deviam seguir determinadas normas de comportamento, e os desobedientes pagariam com prisão. Vemos nitidamente a influência do contexto histórico na criação da obra: publicado pela primeira vez em 1972, em plena ditadura militar, esse livro sutil, de mensagens tão leves quanto profundas, veio transmitir um recado claro sobre o totalitarismo durante a Ditadura Militar, que perdurou até 1984.

O livro tem uma linguagem deliciosa, muitos momentos engraçados e também nos provoca aquelas reações tão óbvias, de quando nos deparamos com o Realismo Mágico: o estranhamento, o franzir de sobrancelhas, o revirar do cérebro. Ele inquieta, diverte, critica gentilmente o sistema ditatorial através da Companhia, mas não se trata de uma distopia: os eventos não se passam em um mundo futurístico, com tecnologia de ponta, acima do que a ciência nos permite atualmente.

Não: ele é mais bucólico, simples, inserindo no cotidiano o elemento do mágico, do insólito. Foi um livro muito gostoso de se ler, rápido, de linguagem acessível e um trabalho que deveria ser adotado em todas as escolhas de ensino fundamental e médio.
Recomendo!!


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