02 agosto 2015

[DOMINGAS] A Literatura e eu: jornada de criação do leitor - dos quadrinhos a Harry Potter

As palavras se fazem presentes na minha vida há tanto tempo, que foi difícil precisar quando, de fato, entraram nela – ou melhor, quando elas começaram a “tomar feições sólidas” em minha experiência de vida, porque a leitura faz parte do dia a dia.


Para uma leitora hoje experta, é difícil imaginar que, um dia, seu ritmo de leituras literárias foi lento e experimental; que já esteve indecisa sobre o que ler, ou mesmo se deveria ler, porque alguns livros empoeirando na estante de madeira da sala, bem como o que eles teriam a contar em páginas amareladas pelo tempo, não pareciam capazes de trazer benefícios a curto prazo.

O ano era 1991. A minha primeira lembrança de aproximação com a palavra escrita não é de casa, por incentivo da família, ou da escola, por indicação dos professores. Aproximei-me das primeiras histórias por meio dos empréstimos de histórias em quadrinhos da minha vizinha, Ana. Ela fez a gentileza de emprestar suas HQs, que me causavam verdadeiro fascínio juvenil. Se ainda não foi meu primeiro contato com a Literatura ou com o suporte dos livros, tratou-se de um grande passo: a entrada no universo da ficção.

Ana e seu esposo eram fascinados por toda sorte de produtos Disney. E aquele foi o meu primeiro contato consciente com a palavra escrita. Apreciei tanto a experiência, que pedi um segundo exemplar e, posteriormente, um terceiro. Em quanto tempo eu conseguia ler na íntegra cada revista, é impossível dizer. Desenvolvi afinidade com a minha vizinha, apesar da grande diferença de idade; aproximamo-nos por amor à leitura, e foi quando comecei a interagir mais com as pessoas que se cercavam do mesmo amor que eu, a despeito do pouco diálogo com a minha própria família.

Naturalmente, o momento da separação foi chocante, mas inevitável: Ana e seu esposo se mudaram. Partiram e levaram consigo os quadrinhos e minhas primeiras experiências de leitura, que apenas começavam a se desenvolver. As leituras se restringiram, desde então, às dos livros didáticos da escola.

Entre aquele ano e 1995, há um grande hiato e, a partir dali, sobreviveram apenas as lembranças das leituras escolares obrigatórias. Nesse ano, porém, tive meu primeiro contato com outra HQ emprestada – também da Disney, dessa vez, por intermédio de um colega de turma. Senti, na pré-adolescência, um resgate da fase mais deliciosa da infância e um questionamento sobre o futuro. A revista se inspirava em um clássico romântico francês, “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. Nessa fase, não apenas a leitura, mas a minha produção escrita aflorou; tornou-se atraente e prazerosa, a humilde ambição infantil de seguir carreira como escritora – sempre desencorajada pelos meus pais, porque “no Brasil, ninguém vive de escrever”. O que começou como um sonho inocente foi abafado como um pesadelo pueril.

Apenas em 1998, abri-me à atmosfera literária, com o meu primeiro livro, um nacional: “O Seminarista”, de Bernardo Guimarães – obra que me ofereceu uma experiência única, revolucionária, reveladora; catártica e revoltante. Por algum tempo, perguntei a mim mesma se todos os livros deixariam em mim aquela sensação de total esgotamento emocional. Cheguei a temê-los, tentei evitá-los. Mas foi impossível contê-los.

Não obstante o pouco interesse dos meus pais pela leitura literária, desenvolvi o hábito. Nunca recebi deles um livro de presente ou o incentivo a ler - desconheço suas razões. Mas é um hábito que gostaria de ter adquirido através deles, porque é uma paixão que pretendo transmitir aos meus filhos.

Existe alguma iconicidade nas pessoas que, de alguma forma, nos inspiraram a nutrir paixões, naquelas que provocaram a transformação do nosso olhar sobre o mundo ao redor, através das mais diferentes ferramentas: seja a Literatura, a música, o esporte, as obras sociais. As pessoas que nos iniciam em uma paixão duradoura permanecem na nossa vida, muitos anos depois de se retirarem dela. Curiosamente, apenas hoje tenho a atenção voltada à protagonista de meu primeiro conto publicado, ao nome que veio de súbito à superfície da mente, quando a história começou a ser escrita e precisava de uma heroína. Ela deveria ter um nome simples e forte; curto, porém, com significado, e que resumisse em si toda a humildade e resistência da protagonista. Ela se chama Ana.

A partir dos quadrinhos lidos despretensiosamente na infância, busquei desafios maiores, procurei a Literatura nos momentos em que não parecia haver ninguém ao redor. Em meio à época mais conturbada da minha vida, com a mudança de casa e de cidade, e a separação da família, a biblioteca da escola era um refúgio, um porto seguro onde encontrei amparo. Foi quando comecei a mergulhar em Hugo, Machado, Rey, Alencar, Almeida, Rachel, Clarice e tantos ícones, que trouxeram alento em um momento de falta.

Todo leitor experiente tem lembranças vívidas de cada livro que o marcou, é fato. Porém, sempre existe um destaque – aquela história que faz você pensar em porque não a leu antes, e que tipo de pessoa seria sem ela. Existe uma história que te absorveu, que transfigurou o seu presente, desdenha do seu passado e delineia o seu futuro.

Quando J. K. Rowling criou sua saga mais célebre, talvez pensasse apenas em uma fonte de renda segura para viver com sua filha. Será que se imaginava transformada em um ícone da literatura fantástica infanto-juvenil e ser bilionária em menos de dez anos após o lançamento de seu primeiro livro?

Quando conheci Harry Potter, eu também morava com meus tios e, apesar de sermos da mesma família, havia os conflitos comuns de quem precisa dividir a casa com o filho de outra pessoa, então foi natural criar afinidade com ele. Cada personagem dessa história deixou uma marca importante, o que seria difícil de relatar em poucas laudas. Esta primeira parte da análise será voltada, não a uma pessoa, mas a um lugar: Hogwarts.

Sim, no contexto ficcional, Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry é uma escola de magia, onde são devidamente educadas as crianças a partir dos 11 anos que têm ancestrais magos – característica geneticamente transmitida. Mas o ponto alto de Hogwarts – a principal razão de leitores como eu desejarem que esse lugar existisse de fato – vai além da educação dos melhores mestres. Hogwarts é um lugar onde o fator humano é tido em alta conta; a todo momento, as instâncias que unem ou separam as pessoas são questionadas, avaliadas, repensadas.

A escola é coordenada por um ex-professor, Alvo Dumbledore, que é essencial na minha jornada como leitora e como ser humano, pela força e relevância de seu discurso. Alvo não viveu para ver o fim daquela história, mas deixou um legado de sabedoria para os estudantes de Hogwarts e também para cada leitor. Adotei muitas de suas filosofias em minha experiência de vida.

Por influência de suas palavras, que sempre surgiam em momentos de dificuldade ou superação, e do contexto em que se projetaram, compreendi o poder das nossas escolhas na construção do nosso caráter; aprendi a lidar melhor com a ideia de morte iminente e de luto.  
São nossas escolhas que revelam quem realmente somos, muito mais que nossas qualidades. (Alvo Dumbledore, em “Harry Potter e a Câmara Secreta”, 1998)

Personagens da ficção podem projetar-se parcialmente em nós, sem prejuízo da manutenção de nossa identidade, sugerindo que se vive em um mundo “de mentira”: tal posicionamento é mito. Todo leitor sabe que adquire experiência através da vivência de outras pessoas, por isso se diz que quem lê “vive mais vidas do que o não-leitor”. Então, longe de nos tornarmos alheios à nossa realidade, a experiência da ficção nos faz mais atentos a ela e agrega a experiência de quem já viveu ou refletiu sobre as mesmas situações.

Minha bagagem literária começou nos quadrinhos, passou a cânones da literatura francesa e brasileira e chegou aos livros infanto-juvenis best sellers – alguns, ainda incompreendidos pelo grande público. Mas a leitura, seja qual for a plataforma em que se realiza, liberta, instrui, alimenta.

Literatura é vida.

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2 Comentários:

  1. Que belo e fascinante relato!! Se houvesse mais meia dúzia de leitores do seu naipe por aqui, poderíamos fundar uma agremiação literária em nossa cidade, cuja população sempre foi tão carente de cultura e saber!

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