09 agosto 2015

[DOMINGAS] O sombrio da infância

A primeira vez em que me vi sozinha e senti medo de verdade foi aos 12 anos. Fui à casa de uma colega fazer um trabalho de grupo sobre formas geométricas. Ela morava no Campo. Para o trabalho, nossa equipe produziu cones de cartolina, cubos de tela e outros polígonos lindos, com a ajuda da mãe dela. No fim da tarde, chegou a hora de enfrentar a estrada que adiante seguia.

A empregada da casa da minha colega me fez companhia porque morava perto da minha casa, coisa simples, sem contratempos, beleza. Mas ao sair, a moça – se conversou comigo, honestamente, não me lembro – deu uma parada na escolinha de uma rua no caminho. Pensei que a parada seria rápida, até porque quando a gente diz “dar uma parada” quer dizer que não vai demorar muito. A pessoa que quer parar, não dá uma parada, apenas para. Se ela passou 15 segundos ou 15 horas lá dentro, para mim deu no mesmo.

Eu era um Nemo: só queria ir para casa! Fiquei observando umas salas, enquanto a eternidade se consumia lá fora; crianças nasciam, casais noivavam, casavam-se, separavam-se, idosos morriam, livros eram escritos, plantavam-se árvores que não durariam cem anos, mais crianças nasciam... De onde estava, entreouvi algumas palavras do que ela e a amiga da escola falavam; acho que se referiram a mim, por uns 10 segundos, e retornaram aos próprios assuntos. Enfim, ela me chamou para irmos embora, já caía a noite – o vento a denunciava – e eu ainda estava longe de casa. O caminho das pedras se estendia. Parecia que a cada passo para a frente, eu dava dois para trás até chegarmos à ladeira que dava na minha rua. Ali, a moça transformou meu leve desconforto em pânico.

- Vou deixar você aqui. Você sabe chegar a sua casa, não sabe?
Podem ter sido estas, as palavras, não recordo bem porque estava aterrorizada. Pode ser que ela, sequer, tenha aberto a boca. Não sei se lhe perguntei “Não vai comigo até lá?!”, e se ela riu da minha ingenuidade. Fato é que ela seguiu pela direita e eu encarei a ladeira: a segunda parte do desafio. Passo a passo, fui subindo. Claro que conhecia o caminho de casa, mas jamais saíra ou voltara sozinha.

Observei tudo ao redor como se tivesse vivido em escuridão até aquele momento. À direita, havia um pé de melão de São Caetano, atrás da Igreja do Coração de Jesus. Estava farto, belo, as flores tão amarelas quanto possível. Meu pai costumava pegar umas flores de vez em quando, ou as sementes, para os canários que nos visitavam, de vez em quando.

Foi então que a vi: uma fera enorme, negra, com um rosnado ensurdecedor, olhos vermelhos (não de ressaca), babando furiosamente, espirrou fogo pelas ventas. Petrifiquei. Não sabia se devia correr, gritar, chorar. O pé de Melão parecia um ótimo esconderijo, mas se eu me movesse, aquela fera sanguinária viria para cima de mim! Ela se aproximava devagar... Era isto! A vida me conduzira para o triste fim de ser devorada por um animal cruento, sem requintes de sorte e sem provar que era capaz de encontrar o caminho de casa sozinha! Lá vinha ele, mais perto, mais perto. Baixei a cabeça e fechei os olhos. E ele passou direto. Virei para olhar, era apenas um cachorro. Nem preto ele era: era marrom, cor de chocolate, até simpático, e abanava o rabo feliz. Mas o medo não acabou por aí, bastou virar-me novamente para o trecho seguinte da ladeira.

Continuei subindo. Casa após casa, refleti bastante. De repente, pareceu haver um campo de futebol entre uma casa e outra, o que me daria tempo suficiente para pensar. Mamãe seguia uma rotina: levar as crianças na escola, voltar para casa, preparar o almoço pensando em como estão as crianças, buscar as crianças na escola e saber se estão bem.

Seria a falta dela que me deixava tão insegura, então, na subida? De repente, olhei para os lados, procurando por ela, porque aquilo devia ser uma brincadeira! Certamente, ela combinara com a moça que me deixou no início da ladeira e ficaria me observando de longe. Mas logo essa possibilidade se desfez. Ora, já não tinha quatro anos, o que me atormentava não era o escuro do quarto ou do percurso, era o escuro em mim. Coisa que só compreendi anos depois.

Parecia nunca ter cruzado aquelas ruas, a ladeira só tinha começo, não tinha fim. Queria materializar qualquer pessoa ali, mesmo o meu irmão caçula, porque eu, decididamente, não conseguiria seguir sozinha. Passei então pela casa de onde saiu, tempos atrás, o primeiro caixão de anjinho que vi na vida – "anjinho" é como se chamam, no Nordeste, as crianças que morrem ainda bebês. Sempre gostei da cor azul em si, a cor do céu, do mar, do Manto de Maria, dos olhos de...

Em todo caso, cobrindo a madeira que levava um bebezinho morto, senti certa repulsa por aquela cor. Ainda acho que esses caixões deveriam ser, obrigatoriamente, brancos. O bebezinho em questão morrera de anemia, a família era muito pobre e mãe ainda estava muito fraca. Tudo o que você mais ama é tirado de você muito cedo. Na verdade, não importa quando, sempre será cedo demais. E é bom a gente se acostumar a uma das leis da vida: não se pode ter tudo, se você quer algo, deve conformar-se por perder outra coisa. 

Foi quando vi o AR-15 mental, o C4 do horror de todos os meus pesadelos, desde que nos mudamos para aquele bairro: o cemitério do fim da ladeira. Ô idéia de gênio, levar para morar, perto de um cemitério, os filhos, jovens demais para entender mais do que os mitos que veem na televisão. Toda noite me assombrava um fantasma diferente. Mais alguns passos, procurando não mirar os portões do cemitério – como se o meu olhar garantisse que algo sairia de lá – e vi a esquina da minha rua! Tudo clareou: eu não estava no caminho errado, afinal! Era exatamente por ali que minha mãe nos guiava aonde quer que fôssemos, com ela. A rua onde aprendi a andar de bicicleta, a rua de onde sairia sozinha, para a escola, um ano mais tarde, acompanhada apenas pela minha irmã. Mamãe custou a acostumar-se, e nós, a não sermos acompanhados.

Cheguei a casa – Inacreditável! Deveria fazer isso mais vezes, pensei. Abri o portão e não ouvi qualquer barulho dentro da casa. Será que errei?, pensei. Não, a minha residência era aquela mesmo: reconheci a vizinha da frente, parada em frente ao portão. Certa vez, houve o maior tumulto ali. Essa mulher gritava pelo marido, que foi chamado por vizinhos e veio desesperado do trabalho. Resolveu tudo misteriosa e rapidamente. Não sei o que aconteceu lá dentro, mas os gritos ainda estão gravados na minha memória.

Lembranças à parte, ao entrar em casa, vi a minha mãe e a TV em que assistia a meus filmes da tarde. Ela perguntou se a moça me deixara à porta. Assenti, claro: foi a condição para poder ficar sem ela na casa da coleguinha e fazer o trabalho de Matemática. Se contasse a verdade agora, eu é que levaria uma sova e era bem capaz de ela ir caçar aquela moça nos confins, para saber porque não deixou a sua filhinha em casa, quando prometera fazer isso. Era melhor deixar quieto.

- Ela me deixou logo ali e foi embora!
Poupei minha mãe da sessão de feras sanguinárias, anjinhos e fantasmas de cemitério. Sentei no sofá, o coração ainda acelerado. Nunca me sentira tão viva quanto naquele tempo indefinido em que devaneios infantes perpassaram a minha mente. Na ocasião, não percebera que o terror não estava nas coisas em si, mas na imagem que eu criei delas, no que eu esperava que elas fossem.

Criei, pintei e dei vida aos meus próprios medos e, quem sabe, utilizei-os para sentir que estava viva, para experimentar. Uma perspectiva otimista, digo eu. Por isso mesmo entendo porque não parei totalmente, naquela ladeira. Enquanto sentia o medo sacudir o meu corpo, forcei-me a avançar através dele; devagar, mas sempre adiante. Que opção teria? Ficar ali pelo resto da vida ou até que alguém em casa desse por minha falta e fosse me procurar?

Quem disse que uma tarde de domingo não pode ser uma grande aventura?

Contei esta história para a minha mãe hoje, quatorze anos depois. Talvez porque previsse que eu seria nômade, nos anos posteriores, ou porque o sexto sentido de mãe nunca falha; fato é que ela me olhou seriamente e disse: Nunca duvidei de que você conseguiria voltar.

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