11 janeiro 2016

[RESENHA] Bandeira de Bolso (Org. Mara Jardim)

Organizado e apresentado por Mara Jardim, este volume reúne 149 poemas de Manuel Bandeira (1886-1968), o mais brasileiro dos nossos poetas. Tuberculoso desenganado que viveu até os 82 anos, modernista de primeira hora, precursor do verso livre, era, ao mesmo tempo, admirador de Olavo Bilac e das formas poéticas fixas. Bandeira, essa figura singular, trouxe à poesia a realidade do país, a ginga, a malandragem, a fala das ruas, os pequenos personagens e até mesmo nomeou os sentimentos coletivos da alma nacional (como na estrofe acima). E deu a esses fenômenos sua mais bela expressão. Poeta de voz única, intelectual de proa da nossa cultura, aqui estão reunidos seus mais populares e significativos poemas. (SKOOB)
BANDEIRA, Manuel. BANDEIRA DE BOLSO: UMA ANTOLOGIA POÉTICA. Porto Alegre-RS: L&PM, 2010, 166 p.


Enfunando os papos,
Saem da penumbra, 
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
("Os Sapos", 1918, p. 41-42)

A coletânea da L&PM Pocket, organizada por Mara Jardim, reúne 149 dos melhores poemas de Bandeira, um pernambucano tuberculoso que já fora desenganado pelos médicos e acabou vivendo até 82 anos, enterrando o próprio médico que o condenara. Um Modernista meio parnasiano, profundo admirador de Bilac e da forma fixa da poesia, ele conquistou meu coração pela enganação - eu, que acreditava na plena liberdade de seus versos. 

Esta obra é tocante e profunda. Eu tenho uma paixão secreta por Manuel Bandeira, mas não como analista literária. Convivo com mestres, doutores em Letras, capazes de análises densas e admiráveis, e talvez eu jamais chegue aonde eles estão, porém gosto de apreciar a poesia de Manuel pelo que se me apresenta: um conjunto de traços de sua vida, seu passado de doença, sua amizade com Mário de Andrade, espalhados em meio a sua poesia.
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti é a vida!
("Madrigal Melancólico", 1920, p. 60)
Os poemas estão distribuídos dentro de 10 livros de Bandeira, que esta coletânea reúne: A Cinza das Horas, Carnaval, O Ritmo dissoluto, Libertinagem, Estrela da Manhã, Lira dos Cinquent'anos, Belo Belo, Opus 10, Estrela da Tarde e Mafuá do Malungo. "Poema retirado de uma notícia de jornal", "Irene no Céu", "Rondó dos Cavalinhos" são exemplos de alguns dos melhores poemas de Bandeira nesta coletânea. Um deles apela fortemente à minha emoção, "O Bicho":

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
("O bicho", 1947, p. 119)

É uma obra que recomendo para que você tenha em casa. A L&PM Pocket caprichou na edição e fez um excelente trabalho. Aplausos também para a seleção feita por Mara Jardim.

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
("Vou-me embora pra Pasárgada", p.89)








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