16 maio 2016

[RESENHA] São Bernardo (Graciliano Ramos)

Neste livro, as memórias de Paulo Honório, o capitalista, ambicioso, dono da fazenda São Bernardo, são contadas sem censura. Paulo é um sujeito bem dono de si e que parece saber o que quer. Tem muitos contatos entre os poderosos e não tem piedade quando se trata de escravizar ou punir alguém. Apaixona-se por uma moça idealista e justa, que vem se contrapor a tudo o que ele significa. Do que resultará a união do Capitalismo com o Socialismo? É ler para crer. 

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. São Paulo: Editora Record, 2014, 270 p.


O que é a vida de um leitor sem um bom clássico, confere?
O que estou estudando para meu Trabalho de Conclusão de Curso envolve um embate entre livros clássicos e contemporâneos. Os adolescentes não leem mais livros clássicos porque eles não são apresentados como uma fonte de prazer inigualável, como ferramentas para se alcançar o prazer estético de uma boa leitura, para provocar catarse. São impostos como ferramentas obrigatórias de aprovação em processos seletivos. Qual não é a barreira que se ergue entre o jovem estudante e os livros clássicos da nossa Literatura. 

Tal como Til, de José de Alencar, São Bernardo me conquistou pela simplicidade e complexidade de sua trama, pela beleza de personagens tão reais que, efetivamente, poderiam ser nossos vizinhos de porta, que batem boca por política, uns com melhores contatos e mais dinheiro aqui, outros mais humildes e humanistas ali, e por aí vai.

O livro é narrado em primeira pessoa, por um narrador personagem, que resolveu escrever as memórias de sua vida ao chegar à meia idade e descobrir que, na verdade, não conseguiu alcançar ABSOLUTAMENTE NADA NA VIDA. Sim, é um romance sobre o fracasso, sobre os caminhos que percorremos em busca de objetivos que se provam falhos e que não têm conserto.

É possível ver o embate entre o Capitalismo e o Socialismo, e que fim trágico o mesmo pode ter. O livro é tão atual, para nossa época, mas foi lançado na década de 30. E sua narrativa poderia ser facilmente interpretada como uma criação de seis meses atrás. Li para fazer um exame de Literatura Brasileira IV, visto que minha professora sabia o quanto Vidas Secas já foi analisado e analisado por acadêmicos, ao longo dos anos.

Seja pelo aspecto da língua falada, presente na escrita de Graciliano...

Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia. (p. 9)

... Seja pela força do determinismo, presente na obra...

Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia. (p. 100)

... Seja por se identificar com a insistência de Paulo Honório de não assumir a culpa pelos próprios erros e falhas...

A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste. (p. 117)

... Seja pelo último capítulo, em que Graciliano consegue, com tamanha maestria, resumir todo o livro em algumas páginas, esta é uma obra que merece ser lida e relida. Para mim, foi uma experiência apaixonante, que começou com a obrigação da avaliação, mas terminou com uma releitura deliciosa. RECOMENDOOOO!




\\o Boas Leituras! o//

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