04 setembro 2016

[RESENHA] Perdida (Carina Rissi)


Sofia vive em uma grande metrópole, no século XXI, e não apenas está habituada a todas as facilidades que o avanço da tecnologia nos trouxe, como gosta muito delas. É uma mulher forte, independente, paga suas próprias contas e nem quer ouvir falar em casamento - exceto nos livros que tanto ama, especialmente os de Jane Austen, sua autora favorita. Mas é em decorrência de uma nova tecnologia que algo incrível acontece! Sob circunstâncias misteriosas, Sofia descobre-se perdida no século XIX, não tem a mínima ideia de como voltar para seu próprio tempo, se puder! Ela é calorosamente acolhida pelos Clarke, família imponente daquela região, e, sob os cuidados do amável e atencioso Ian Clarke - uma beleza típica do século XIX - Sofia busca reunir todas as peças do quebra-cabeças daquela viagem maluca, e descobrir como voltar logo para casa. Pena que ela não contava com uma peça pregada por seu coração.
RISSI, Carina. Perdida. Campinas, SP: Verus, 2015, 363 p.

Ler este livro foi um turbilhão de emoções. No início, ele começou leve, despretensioso, como quem não quer nada. E evoluiu em um crescendo até me agarrar por completo, pelo coração. Perdida é um romance, caras leitoras e leitores. Não esperem grandes cenas de ação e muito barulho por nada: o que vocês têm aqui é um romance delicioso, que alivia o dia e te faz sonhar e desejar voltar também para aquele Brasil, aquele século, quando as pessoas ainda tinham alguma esperança. O romance entre Ian e Sofia é inevitável, e isto já não é spoiler, pois Perdida já tem quase 700 resenhas lançadas no Skoob, e muitas outras em blogs e sites literários. Eu me detive particularmente nas questões tecnológicas, feministas, linguísticas, sociais e ideológicas apresentadas no livro, e parei para refletir sobre elas muitas vezes durante a leitura.
Como as pessoas conseguiram viver sem computador por tanto tempo? (p. 12)
A autora aborda com ficar longe das tecnologias, da internet nos isola virtualmente do mundo. Sofia vivia cercada dos meios de comunicação mais modernos. Por conta de um acidente, viu-se apartada de tudo; e, após os acontecimentos misteriosos do livro, completamente afastada do mundo moderno. Retratar viagens no tempo, seja para o passado, seja para o futuro, também são uma forma de tecer críticas a um presente inóspito: Sofia se surpreende pela bondade desinteressada, e não acredita que um completo estranho tenha oferecido ajuda sem esperar nada em troca, pois está acostumada com uma realidade diferente, em seu tempo.
Fiquei surpresa que um estranho se preocupasse comigo daquela forma. (p. 38)
Encontrei antíteses interessantes, como a questão de tudo que é velho, para Sofia, ter um aspecto novo, pois ela está diante da mobília novecentista de fato, sem as marcas do tempo. A questão da mulher no século XIX vs. mulher no século XXI também me chamou a atenção, pois a autora deixou expresso, como a mulher mudou, em apenas 2 séculos: vestimenta, comportamento. A atitude de Sofia é um ultraje à posição da mulher daquela época, das moçoilas que deviam portar-se sempre bem, sentar-se de forma ereta, ter um vocabulário adequado e bons modos, sem falar na castidade.
Talvez minhas roupas fossem mais estranhas para ele do que as dele eram para mim. Homens usavam terno em escritórios, casamentos e festas - não para cavalgar, claro, mas eu já tinha visto homens em trajes formais milhares de vezes. Ele, no entanto, não estava habituado a ver pernas... (p. 46-47)
Considerando que aborda a viagem no tempo, o livro é bastante verossímil. Eu sou fascinada por essa temática. As coisas que Sofia levou para o século XIX, toda a sua bagagem cultural e histórica, nos dão a entender que o mundo avançou tanto em pouco tempo porque houve a intervenção de alguém, o que torna o desenrolar dos fatos mais verossímil. Um visionário? Ou alguém que, de fato, teve uma visão do futuro? As questões linguísticas, quando as expressões e gírias de Sofia causam confusão na mansão Clarke; as ideológicas, quando percebemos a ideia transmitida por gerações, de que a mulher devia ser "treinada para o casamento" e esperar por isso como o ponto alto de sua vida; as sociais, e não pude deixar de notar o elemento da Escravidão, visto que estamos em 1830, o que a autora esclareceu posteriormente. Carina traça um paralelo entre a mulher moderna x a mulher do século XIX
Ele sorriu mais uma vez. Pensei com amargura que era uma pena as pessoas de hoje não serem mais assim, não sorrirem com tanta facilidade... (p. 60)
O incidente da navalha vai me divertir enquanto eu viver.
Quanto ao material gráfico: eu amo essa capa e seu jogo de cores foi plenamente satisfatório para mim, pois não é uma história tão água-com-açúcar - Carina me surpreendeu com o toque mais apimentado, hot, que encontrei no livro. Então, menores de 18, não leiam, hein ;-)

Existem inúmeras outras questões que eu levantaria: a presença de Santiago resgata Dom Casmurro  e Othello? Teodora é a maior ilustre despercebida do livro. Mas o que me ganhou mesmo, neste livro, foi o seguinte questionamento: E se o amor da sua vida não viveu no mesmo presente que você, e é por isso, nunca deu certo com ninguém (porque você não pertence a este tempo)? É algo a se pensar com carinho, para chorar na calada da noite, depois que todos forem dormir.

Sabe aquela autora que você quer ter na estante para sempre, para amar e respeitar até o dia da sua morte? Leitura EXTRA recomendada, para amar, chorar, e se emocionar mais um pouco!

NOTA: 4,5/5

Livros da Série Perdida:
1. Perdida
2. Encontrada
3. Destinado
4. Prometida (a história de Elisa Clarke)

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