31 janeiro 2017

[RESENHA] Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias (Edgar Allan Poe), L&PM pocket

Para termos uma ideia precisa da influência de Edgar Allan Poe sobre os romances policiais e de mistério que tanto sucesso fariam a partir de meados do século XIX, basta dizer que, não fosse o conto "Assassinatos na rua Morgue" (1841), não haveria Sherlock Holmes (Conan Doyle, 1887), Hercule Poirot (Agatha Christie, 1920), Padre Brown (G. K. Chesterton, 1911), Don Isidro Parodi (Bioy Casares e J. L. Borges, 1950) e tantos outros detetives ou investigadores que até hoje encantam milhões de leitores. O personagem central deste conto, o francês Monsieur C. Auguste Dupin, poderia ser Sherlock Holmes e o narrador poderia ser o Dr. Watson. O fascinante personagem de Poe, através de um sistema próprio de dedução baseado na sua profunda capacidade de observação dos fatos, é capaz de ler os pensamentos do seu interlocutor e desvendar um dos mais intrincados e misteriosos casos de assassinato já enfrentado pela polícia francesa: o bárbaro duplo assassinato de mãe e filha num apartamento na rua Morgue. Meio século depois, Conan Doyle tomou emprestada a alma de Dupin para criar seu Sherlock. A partir daí o gênero caiu no gosto do público e os grandes personagens se multiplicaram. Esta edição contém os contos: "O demônio da perversidade", "Hop-Frog ou Os oito orangotangos acorrentados", "Os fatos que envolveram o caso de Mr. Valdemar", "O gato preto", "Nunca aposte sua cabeça com o Diabo" e "Assassinatos na rua Morgue". (ADICIONE O LIVRO AO SKOOB AQUI!)
POE, Edgar Allan. ASSASSINATOS NA RUA MORGUE E OUTRAS HISTÓRIAS. Porto Alegre: L&PM, 2016, 158 p.

Gosto de antologias de contos de um único autor, pois podemos ter melhor dimensão de como cada narrativa curta se mescla e como ele constrói personagens em espaços curtos. 

Conto 1: O DEMÔNIO DA PERVERSIDADE
A princípio, imaginei estar diante de um ensaio, porém, pela voz de um personagem logo mais declarado, Poe escancara a narrativa ficcional e avalia os impulsos de autodestruição experimentados pelo seu narrador, estimulados pelo que ele denomina o "demônio da perversidade", que leva os homens a cometerem atos perversos apenas porque "sabem que não deveriam". Sua linguagem é um pouco mais rebuscada e ele se rende ao cientificismo em alguns momentos, porém se torna genial, ao fim: ele discute que todas as pessoas têm tendências autodestrutivas e que o aspecto perverso é o que nos preserva de assumir responsabilidades morais pelo que fazemos de mau. O início do conto desestimula sua continuidade, pois tem esse referido ar ensaístico de um filósofo que debate questões humanas, como a perversidade, mas vá em frente, pois o final e a presença do protagonista nos surpreendem.

Conto 2: HOP-FROG E OS OITO ORANGOTANGOS ACORRENTADOS
O cara é um mestre e é assustador. Não se engane pelo título aparentemente bobo, pois a coisa é mais macabra do que você pensa agora. Esta é uma história de mistério sobre a vingança motivada pela humilhação, e os requintes de crueldade que podem ser utilizados em um momento assim: que horror! Um anão deficiente chamado Hop Frog e sua amiga Trippetta foram sequestrados, levados para fora de sua terra e forçados a serem bobos da corte de um rei sádico. E foi com base em muita inteligência que Hop Frog arquitetou sua vingança contra seus opressores. O conto foi narrado em 3ª pessoa, logo esse foco narrativo não nos permite tanto acesso ao íntimo dos personagens. Mas sem dúvidas, um conto macabro e genial.

Conto 3: OS FATOS QUE ENVOLVERAM O CASO DE MR. VALDEMAR
Um dos contos mais insanamente brilhantes que já li. O conto narra uma experiência médica que utiliza o hipnotismo e um paciente em leito de morte, em Harlem, Nova York. O conto tem narrador em 1ª pessoa e ele mostra esse médico adepto da hipnose - ou mesmerização - que está presente e atuante durante a experiência de morte do Sr. Valdemar, tuberculoso. Os dois tinham um acordo: quando Valdemar estivesse perto de morrer, o doutor deveria hipnotizá-lo, para saber quais seriam os efeitos do estado de torpor, e se isso retardaria a morte. Incrivelmente, Valdemar não morre, permanece hipnotizado. O médico tenta se comunicar com o moribundo ("...o senhor ainda está dormindo?") e o outro dizia ("... sim, dormindo ainda, morrendo"). De repente, Valdemar fica duro, sem sinais de vida e gelado. Mas não está morto. E o final... terão de ler ;-). É chocante!

Conto 4. O GATO PRETO

Estou embasbacada. Horrorizada. Atemorizada. Conto psicológico ou de terror? Qual o limite e quais as razões dos nossos instintos? O que nos leva a cometer atos macabros e cruéis? Um homem que liberava seus instintos animais quando bebia. E era assim que fugia. Culpava a perversidade para fugir de suas responsabilidades morais. Tinha uma frieza impressionante ao lidar com as mortes que ele mesmo desencadeou. Bárbaro.

Conto 5. NUNCA APOSTE SUA CABEÇA COM O DIABO
O conto me chamou a atenção pelo fato de o autor já iniciá-lo tentando buscar algum tipo de compensação por sua moralidade. Ele menciona (p. 69) que desde que as atitudes morais de um autor sejam puras em sua vida diária, a moral expressada por ele através de seus livros não tem a menor importância. Então, o que me parece é um debate sobre o quanto a narrativa pode ser afetada pelo posicionamento do autor, por suas atitudes, por sua posição e suas escolhas. Ele conta a história de Toby Dammit (nome bem sugestivo), que teve uma vida desgraçada de vícios e uma morte absurda, mas tenta isentar os defeitos do amigo, considerando as falhas da personalidade da mãe dele. Descreve o jovem Toby desde a infância; ele tinha mania de apostar "a cabeça dele com o diabo"; o narrador temia pela alma do amigo e coisas sobrenaturais começam a se desenrolar. O final vai te deixar pensando nisso e em amizade também. Curti! 

Conto 6. ASSASSINATOS NA RUA MORGUE
Lançado em 1841, o conto nos permite apreciar o talento de Poe na ficção policial, em um caso de detetive. Este é o conto mais longo do livro e a surpresa do seu desfecho ainda me impacta, porque tratando de Poe, sempre esperamos o suspense que culmina no sobrenatural. A priori, nos é apresentado como decifrar mistérios criminais não solucionados. O narrador usa os jogos de xadrez e de damas para elaborar sua investigação; ele é amigo de Auguste Dupin, que vem a solucionar aquele mistério. Dois assassinatos bárbaros, com requintes de crueldade, aconteceram na rua Morgue, e Dupin vai usar toda a sua lógica para resolver aquilo. A surpresa fica com o seu final. GARANTO COM TODAS A LETRAS que você não esperaria por aquilo. 

\\o Boas Leituras o//

NOTA:
5/5
(Se pudesse, seria 10, 20)

Comentários via Facebook

1 Comentários:

  1. Thay!
    Ler Poe traz sempre grande carga de expectativa, pois seus contos são fabulosos, além de trazer aquele temorzinho que faz passar a adrenalina pelo corpo no momento da leitura.
    Bom que tenha gostado.
    Desejo uma ótima semana!
    “Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele.” (Jean-Jacques Rousseau)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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