20 março 2017

[RESENHA] La La Land (Damien Chazelle, 2016)


Finalmente, cheguei para comentar meu filme favorito do ano, nos Cinemas desde dezembro, pelo mundo, mas que estreou apenas em Janeiro aqui, no Brasil. Eu, que amo musicais, estava ansiosíssima por esse filme, desde que vi os comentários das amadinhas Phoebe Tonkin e Claire Holt, no Instagram. Elas saíram da sala de cinema já publicando para o mundo que esse era um filme para ser visto e amado. E não mentiram.

"La La Land" (Chazelle, 2016) não impressiona pelo roteiro - fato. Mia Dolan (Emma Stone) é uma jovem aspirante a atriz, com muito talento, que espera aquela chance, aquele "Someone in the crowd", a pessoa ou oportunidade de trabalho que vai levá-la para o sucesso. Sob circunstâncias aborrecidas, ela conhece Sebastian (Ryan Gosling, que estava ótimo, mas Emma brilhou e ofuscou geral), um jovem músico apaixonado pelo Jazz puro e tradicional, que não aceita as fintas da música atual e sonha em abrir seu próprio Clube do Verdadeiro Jazz. Eles se encontram por acaso, sim, em um dos melhores momentos do filme - a sequência de abertura, que é de encher os olhos, ouvidos e coração. O romance é delicioso, e os atores têm uma química incrível em tela.

Mas para quem conhece os musicais mais famosos do cinema americano e do francês, além das claras referências ao Jazz puro e tradicional e a homenagem o poder dos sonhos alimentado pela cidade mágica de Los Angeles, o filme inteiro é um deleite.

Depois do banho que o filme deu no Globo de Ouro, era de se esperar grande resposta nas bilheterias de todo o mundo e também uma chuva de Oscars (claramente, eu sou fã, e não me conformo que tenham recebido apenas 6, quando mereciam todos os 14). Esse é o filme mais fofo e adorável nos últimos 20 anos, pelo menos. Ele não cansa, não se você tem amor e sonhos no coração, e sabe como é se sentir como aquelas almas aventureiras e corajosas, que não tiveram medo de enfrentar solidão e mundo em busca daquilo que desejavam. O filme tem 2 horas de duração, mas a explosão de cores, os planos sequência e câmeras lentas, os closes, a música contagiante ligada a coreografias que a gente deseja reprisar, o jogo com luz e foco, e todos os elementos do cinema que se podia utilizar foram esbanjados no filme. Não falo aqui como crítica de cinema, mas como fã que estuda um pouco da coisa todos os dias. 

Um ponto à parte são os looks com um quê atemporal de Emma Stone - um mais lindo que o outro, meio vintage e que mostra a caracterização da personagem: ela era atendente de um café vizinho aos estúdios, não podia comprar roupas caras, então vimos que suas roupas eram de brechó e liquidação! Uma profusão de cores dá destaque e certamente o vestido amarelo que vemos no poster principal há de se tornar um ícone. Já quero para mim! Cada desenho e roupa foi feito para homenagear os maiores do cinema, inspirados nas grandes musas do teatro e da sétima arte, que ela tanto admirava (lembremos do poster enorme da Ingrid Bergman!).

O que mais me atraiu no filme foi a forma como ele é presente, mas se colore de passado, dos musicais de 1930 a 1960, pelos quais o diretor, Damien Chazelle (O mais jovem a ganhar um Oscar de Melhor Diretor, com apenas 30 anos), como ele homenageia clássicos como "Juventude Transviada", "Cantando na Chuva", "Os guarda-chuvas do amor", e até "Amor, Sublime Amor".
A ideia de filmes como uma terra de sonhos, como uma forma de expressão de mundo em que você pode sair cantando, e em que essas emoções podem violar as leis da realidade, é algo que me fascina nos musicais (DAMIEN CHAZELLE, Festival de Veneza).
O diretor também é fã de Gene Kelly e Fred Astaire, e a equipe, com sua coreógrafa Mandy Moore foi submetida por semanas a clássicos dos 50's e 60's, como "Sete noivas para sete irmãos" e "Duas garotas românticas" - que, além de 8 1/2 (Fellini, 1963), inspiraram a fantástica, mind-blowing sequência inicial do engarrafamento, em que todas aquelas pessoas mais-que-comuns expressaram ao ar livre os seus sonhos naquela cidade. Canção: Another day of Sun. Ainda encontramos referências a "Melodia da Broadway" (1940) e "Cinderela em Paris" (1957), que conta com a princesinha do cinema, Audrey Hepburn, em Epilogue, quando ela grava seu papel principal, segurando balões debaixo do Arco do Triunfo, usando uma capa, como a Diva Audrey.

Com Someone in the crowd, somos remetidos a I feel pretty, de "Amor, Sublime Amor" (Wise e Robbins, 1961), e também ressaltem-se os passos congelados na piscina, como ocorre em "Charity" (Bob Fosse, 1969). A sequência de Planetarium, por sua vez, provocou o desdém de muitas pessoas, porém se inspirou em dança de Astaire e Ginger Rogers, em "Ritmo Louco" (George Stevens, 1936).

No meu segundo momento favorito do filme, A lovely night, vemos homenagens claras a Gene Kelly em "Singing in the rain" (Kelly e Stanley Donnen, 1952) - há MUITO de "Cantando na Chuva", no filme; além disso, o sapateado, em danças de Fred Astaire em "A Roda da Fortuna" (V. Minnelli, 1953) e "Vamos dançar" (Mark Sandrich, 1937). Chequem algumas delas no vídeo abaixo:

La La Land - Movie References from Sara Preciado on Vimeo.


Entre outros elementos, citemos o Cinemascope, formato. Na abertura, verificamos que o filme é rodado em amplitude superior ao clássico 16:9. E o que era o Cinemascope? Uma tecnologia de filmagem e projeção, com uso de lentes anamórficas, desenvolvida pelo CEO da Twentieth Century Fox, em 1953 e usada entre 1953 e 67 para gravar filmes widescreen - a técnica faz a imagem apresentar até o dobro do tamanho dos filmes comuns.

E não é apenas no poster de Ingrid Bergman em seu quarto que Mia faz referência  a "Casablanca": em um dado momento, ela faz menção ao filme, quando ela e Sebastian saem da cafeteria onde ela trabalha e eles passam por um set de filmagem. 

Se você tem paixão pelo cinema, por musicais e pela era de Ouro da sétima arte, saiba que La La Land resgatou tudo isso e lhe deu ares de presente, ou seja, recuperou a história do cinema em um único filme, através dos olhares de dois românticos sonhadores apaixonados pelo sucesso e pela luta. Mia e Sebastian mereciam uma história à parte, com mais detalhes? Sim, merecem. Mas sua representação pelo musical tornou sua trajetória pelo sonho poética, filosófica e usou bem a metalinguagem e as referências ao melhor do Cinema. Revejo sem cansar. Só sossego quando tiver todas as canções decoradas!

E o que foi aquele final mágico?
Um fake vs. real ending que reuniu tantos elementos do cinema e do próprio filme, quanto possível. Há muito tempo, eu não via um final de filme tão arrasador. Lamento que muitas pessoas não tenham compreendido o musical - por isso mesmo, confundem o sentimento  com "Não gostei". Mas, se se aprofundarem nos clássicos musicais, filmes e séries que foram ali apresentados em suas releituras, poderão deleitar-se como todos nós.

NOTA:
10/10

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