30 janeiro 2018

[Resenha] Todas as Estrelas do Céu (Enderson Rafael)

Podem dois irmãos adotivos se apaixonarem um pelo outro?Caroline e Leandro são dois adolescentes de uma bem resolvida família de classe média, ele adotado, ela filha biológica do casal Marco e Lúcia. Diante dos conflitos da adolescência, do colégio, do vestibular, ambos se vêem diante de mais um dilema: um amor impossível e todas as consequências da busca pela felicidade ao lado da pessoa amada. O desafio dos dois em entenderem o que passa consigo mesmo, em enfrentar os pais, a sociedade e sua própia consciência é exposta neste romance honesto, ágil e de final surpreendente."Todas as estrelas do céu". Uma obra polêmica e doce ao mesmo tempo, com um tema inusitado, falado de igual para igual com os jovens ou mesmo para quem já passou da adolescência. SKOOB 

Qual opção se deve escolher, quando não se tem nenhuma?
Li o TODAS em algumas horas. E foi uma experiência fascinante. Estava devendo esta leitura a mim mesma desde o ano passado e, finalmente, pude matar a vontade de conhecer a história de Leandro e Caroline Fraga. E a resenha foi concebida ao som de Alanis Morrissete (No pressure over cappucino), como não poderia deixar de ser – a belíssima música tema do casal protagonista.
O tempo cura as feridas, mas não as cicatrizes.
Leandro (Lê) é o filho de criação de Marco e Lúcia Fraga. O casal adotou-o ainda muito menino e depois tiveram duas filhas, Caroline (Carol) e Maria Eduarda (Duda).
Lê foi criado como irmão das duas e, de fato, ele tem um carinho até paternal por Maria Eduarda. Mas, numa dessas Inexplicáveis que a vida apronta com o coração da gente, ele passou a ver Caroline com outros olhos. E o melhor, ela também. E o pior, os pais não gostaram nada: receberam a notícia como parte da sociedade receberia, com olhos cínicos e egoístas de quem só consegue ver um palmo à sua frente.
Isto é ser humano... criar verdades mentirosas, para satisfazer de mentira a verdade que nem verdade é.
É possível dois irmãos de criação se apaixonarem um pelo outro? Gente, isso dá tanta discussão que nem sei por onde começar. É sabido que sendo os dois registrados com o mesmo sobrenome e a mesma filiação, não há possibilidade jurídica de eles, digamos, se casarem. A não ser que Leandro reencontre sua família e, com o devido processo judicial, mude sua filiação. Até aí, tudo bem. E, sem o impedimento jurídico, podem continuar negando o romance? Dizem que pai/mãe não é quem põe no mundo, mas quem cria.
Marco e Lúcia veem Lê como um filho – uma vez que só não o viram nascer - e consideram aquela relação dele com Carol incestuosa. Errada. Não natural. Contra a moral. E por que as pessoas não veem com o mesmo grau de dificuldade o relacionamento entre primos? Da última vez que chequei, primos compartilham mais DNA do que irmãos adotados!
Veja bem, “o coração tem razões que até a razão desconhece”, você não pode decidir quem vai amar, porque o amor decide o que quer, na hora que quer, e pode surgir do nada. No fim das contas, se pararmos pra pensar, ele surgiu mesmo de onde não parecia possível. É aquela questão: na condição de humanos seres tolos que somos, se procurarmos motivos para NÃO ficar com alguém, sempre vamos encontrar! O que muda é até onde você está disposto a ir pela pessoa que cativou seu coração. E quem é esta pessoa, não no mundo, mas na sua vida. Eu achei Lê o máximo, embora um pouco louquinho, e me identifiquei com Carol – a veia poética que toda garota já desenvolveu na adolescência, as playlists com Britney Spears, Pink Floyd, Alanis Morrissete...  É algo que a gente sente próximo, quase como se estivesse acontecendo na casa ao lado, só que é em Teresópolis e Floripa, nessa atmosfera de sonho em que eles se viram envolvidos em dado momento do tempo!
Os homens se gabam de mandarem no mundo, só que se esquecem que as mulheres se gabam de mandarem neles.
Achei este trecho, de Marco Fraga, engraçado e interessante. Certos casais, não importa quanto tempo passaram casados, são simplesmente, uma gracinha de se ver: Marco e Lúcia deveriam saber que o amor resiste a muita coisa. Depois que veio à tona aquele romance - à primeira vista, impossível - Leandro foi separado à força de Carol, por ordem dos pais, e precisava reconstruir a sua vida em Floripa, sua cidade natal. Talvez assim fosse mais fácil... mas quem disse que o coração escolhe o caminho mais fácil?
Talvez lá ele tivesse sido feliz, sem saber, e isso é característico dos humanos: desconhecer a própria felicidade quando se tem uma.
Eu esperava uma narrativa mais densa, até porque as tramas que geralmente leio costumam ser bem enroladas, psicológicas, aterradoras, tentam nos fazer ligar pontos aqui e ali, mexem com a cabeça da gente e, às vezes, dão pane no sistema. O texto do Enderson não é assim: é enxuto, delicioso de se ler, com uma linguagem jovial e expressões típicas catarinenses, descrições breves - porém precisas - e, quando você começa a se empolgar, depois de já ter chorado um bocado, lá vem o último capítulo. 

Um final... Como definir aquele final, além de inesperado e shakespeareano? Épico, romântico (falo do movimento Romantismo), com aquela leve pitada do inacreditável. Você diz... “Sério? SÉRIO??” Ao menos foi a minha reação, depois de alguns minutos de aturdimento. Durante a leitura, sempre que os dois mencionavam “o irmão” ou “a irmã” na conversa, eu rebatia baixinho “Mas eles não são irmãos!”. complicado. É uma obra polêmica, que me surpreendeu bastante. 

Não gostei de uma coisa, apenas: foi muito breve! Eu queria ter conhecido mais da vida prévia deles, talvez cenas da infância, que condensassem nas nossas mentes o tipo de amor que sempre houve ali. Ou dar mais destaque aos pais, Marco e Lúcia, que parecem ser um casal muito lindo, mesmo. No entanto, estou mais que feliz de ter lido este livro e só me arrependo de não ter lido antes. Leitura recomendada!

NOTA: 4/5

Comentários via Facebook

2 Comentários:

  1. Cara, estou loooouca para ler este livro!!!

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  2. Dificilmente existem livros que são bem escritos mas mesmo assim guardam a característica simples e enxuta de sempre.
    Fiquei com muita vontade de ler!

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