26 fevereiro 2020

[26.02] RESENHA: A Volta do Parafuso (Henry James)

SINOPSE SKOOB: A VOLTA DO PARAFUSO foi inicialmente publicado em formato de folhetim em edições do jornal literário Collier’s Weekly: An Illustrated Journal. Em seu aparecimento em 4 partes nos primeiros meses de 1898, foi considerado um dos maiores triunfos literários do autor e seu trabalho mais enigmático e controvertido. O célebre Oscar Wilde declarou, quando de seu lançamento: “é uma pequena história maravilhosa, sinistra e peçonhenta”. Fez enorme sucesso e se tornou um dos trabalhos mais populares do autor, provocando grande polêmica em relação ao comportamento da personagem principal, uma preceptora que narra a história de um casal de crianças supostamente possuídas pelos espíritos de um criado de quarto e de uma antecessora sua. Não fica claro se os acontecimentos eram de fatos reais ou frutos de sua imaginação. Com sua carga de sugestividade e seu poder de causar calafrios, “A volta do Parafuso” tornou-se um modelo de narrativa de terror psicológico e foi adaptada com grande sucesso, em 1961, para as telas do cinema pelo diretor inglês Jack Clayton, com roteiro elaborado por ninguém menos que TRUMAN CAPOTE e William Archibald. O filme “Os Inocentes” foi considerado um dos mais belos exemplos de terror psicológico já produzidos no cinema, além de constituir um vigoroso exemplo de adaptação cinematográfica bem sucedida de uma obra-prima literária.

PODE conter spoilers, porém a história já tem 122 anos desde sua publicação, então... Vamos lá ;-)

Se uma criança faz dar outra volta ao parafuso, o que diriam de duas? (posição 166)
Henry James, assim como Kafka, figura entre os talentos no formato de texto novelesco, ou seja, muito longo para ser classificado como conto e curto demais para ser chamado de romance. O texto é fantástico e consegue manter uma ambiguidade bem sustentada até seu trágico final: os fantasmas eram reais ou imaginados? Ele sempre foi atraído por histórias de fantasmas, porém abominava o óbvio e clichê. Ele preferia o "sinistro" inserido no seio da normalidade e fez isto de forma magistral nesta novela.

A narrativa se inicia às vésperas  de um Natal, quando o jovem Douglas revelou a alguns amigos, em uma roda de contação de histórias macabras, ter um manuscrito de uma jovem governanta que conhecera no passado - e que seria "a mais assustadora história de fantasmas" que já ouviram. Neste relato, ela teria contado que foi a preceptora contratada, anos antes, por um homem rico de Londres, com uma casa de campo em Bly, e que "criava" os dois sobrinhos lá.

Os pais das crianças haviam morrido e ele não tinha o menor interesse em cuidar dos dois, então contratara uma preceptora, Miss Jessel, que cuidou deles até falecer. Agora, ele precisava de outra, e chegou Miss Giddens. Algumas condições se fazem saber pelo seu patrão: a governanta teria todo o poder sobre a educação das crianças, contando com o apoio de Mrs. Grose, uma senhora que trabalha ali há anos, e dos demais empregados; ele não deveria ser incomodado sob hipótese alguma por causa de problemas pequenos, como brigas e outras bobagens; e o principal: ela precisaria se mudar para aquela casa, o que fez.

As crianças são, supostamente, uns amores. No entanto, aos poucos, a nova governanta vai descobrindo que nem tanto. Quando ela chega à casa, apenas a garotinha, Flora, de 8 anos, a recebe, pois seu irmão está no internato. Em alguns dias, porém, recebem uma carta afirmando que o menino, Miles, de 10 anos, fora expulso da escola por motivos nunca esclarecidos, e ele estava impedido de voltar para aquela instituição. E isto é o mais fantástico na narrativa de James: a história tem inúmeras camadas, entre o que é dito e, especialmente, o não-dito! É naquilo que não podemos ler - porque o autor não informa na narrativa - que se esconde a maior parte dos mistérios. É nestes fios soltos, apenas lançados como iscas para nós que reside o medo. O medo do que imaginamos é sempre pior do que o pavor daquilo que vemos.
Um homem desconhecido num lugar solitário é um objeto evidente de medo para uma jovem criada em casa; e a  figura que me encarava era - em segundos tive certeza disso - como ninguém de cuja imagem me lembrasse. (posição 519)
Ao se deparar com, não apenas um, mas dois vultos na casa e no terreno ao redor, pessoas que só Miss Giddens parece ver, a nova governanta começa a desconfiar da presença do sobrenatural naquela casa. É a partir disto que ela acaba descobrindo o tórrido caso de amor vivido por sua predecessora, Miss Jessel e um empregado chamado Peter Quint... Ambos mortos há mais de um ano. A governanta, então, começa a ver os atos das crianças com outros olhos e acredita piamente que eles estão possuídos pelos espíritos desses dois empregados. Então, decide que precisa ser a heroína a salvar aquelas crianças. É nítido, sobretudo, que ela deseja se sentir superior às suas predecessoras.
(...) eu estava naqueles dias literalmente disposta a encontrar alegria no extraordinário arroubo de heroísmo que a ocasião exigia de mim. Vejo agora que tinha sido solicitada a fazer um trabalho admirável e difícil; e haveria uma grandeza em deixar bem à vista (...) que eu poderia me sair bem onde outras moças tinham fracassado. (posição 807)
O desenrolar da história tem reviravolta, tragédia, muita ambiguidade e dúvida, você mesmo vai pensar duas vezes se está lendo aquilo ou não. A história não se desenvolve em ritmo rápido, apesar de os 24 capítulos serem bem curtos. A obra é um clássico da ficção e da metaficção e obrigatória, se você estuda Letras, Literatura e, sobretudo, se acabou de ingressar na Pós-Graduação em Literatura. Queria ter lido este livro há anos, mas sempre costumo dizer que ele chegou na hora certa. A linguagem é de difícil leitura, o leitor não flui tão rapidamente quanto em outros livros, então separe um tempo para ler com calma e faça registros de tudo, quando estiver lendo, ok?

NOTA:4,0/5,0
ISBN-13: 9788580700015
ISBN-10: 8580700019
Ano: 2011
Páginas: 160
Idioma: Português
Editora: Landmark

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