27 fevereiro 2020

[27/2] Resenha Extra: Sejamos todos feministas (Chimamanda N. Adichie)

O que significa ser feminista no século XXI? Por que o feminismo é essencial para libertar homens e mulheres? Chimamanda Ngozi Adichie ainda se lembra exatamente do dia em que a chamaram de feminista pela primeira vez. Foi durante uma discussão com seu amigo de infância Okoloma. “Não era um elogio. ‘Percebi pelo tom da voz dele; era como se dissesse: Você apoia o terrorismo!’.” Apesar do tom de desaprovação de Okoloma, Adichie abraçou o termo e – em resposta àqueles que lhe diziam que feministas são infelizes porque nunca se casaram, que são “antiafricanas” e que odeiam homens e maquiagem – começou a se intitular uma “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”. Neste ensaio preciso e revelador, Adichie parte de sua experiência pessoal de mulher e nigeriana para mostrar que muito ainda precisa ser feito até que alcancemos a igualdade de gênero. Segundo ela, tal igualdade diz respeito a todos, homens e mulheres, pois será libertadora para todos: meninas poderão assumir sua identidade, ignorando a expectativa alheia, mas também os meninos poderão crescer livres, sem ter que se enquadrar em estereótipos de masculinidade. Sejamos todos feministas é uma adaptação do discurso feito pela autora no TEDx Euston, que conta com mais de 1,5 milhão de visualizações (http://tedxtalks.ted.com/video/We-should-all-be-feminists-Chim) e foi musicado por Beyoncé (https://www.youtube.com/watch?v=IyuUWOnS9BY). Leia um trecho do livro: A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente. 
Biografia, Autobiografia, Memórias / Literatura Estrangeira / Não-ficção / Política / Sociologia

Fiz uma releitura maravilhosa.
SEJAMOS TODOS FEMINISTAS é a publicação de uma palestra dada pela Profra Chimamanda N. Adichie em 2012 no TEDxEuston, conferência que ocorre todo ano com foco na África. Ela foi movida por vários questionamentos, entre eles, o porquê de a palavra FEMINISTA e da ideia do feminismo serem tão restritas a estereótipos. Ela tinha reservas de falar sobre o tema, mas acabou sendo ovacionada de pé.

Em sua fala, Chimamanda - que também é autora de HIBISCO ROXO e outros sucessos - apresenta alguns muitos exemplos de sua própria vida, em que o simples fato de ser mulher lhe trouxe percalços, diante de uma sociedade machista e pronta a dar voz e vez a homens de forma desigual. A exemplo do teste para monitor de sala, em que quem tirasse a nota mais alta conseguiria o posto e ela o fez, mas um menino, o segundo colocado, ganhou a tarefa, porque, segundo a professora, era "óbvio" que esse cargo seria de um menino com a nota mais alta. Eu sei. Lamentável.
Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento, nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens. (p. 16-17)
Seja uma gorjeta dada por ela, mas que foi confundida e para seu amigo mais próximo levar o crédito; seja uma reserva de hotel que ela "não podia ter feito", porque uma mulher sozinha e desacompanhada chegando a um hotel era, certamente uma prostituta; seja a proibição de entrar em certos estabelecimentos, como bares e restaurantes, sozinha; seja o impedimento até de expressar sua raiva perante tudo isto "porque a raiva não cai bem na mulher". Inúmeras situações vividas por Chimamanda e/ou por mulheres amigas fazem com que sejamos obrigadxs a refletir sobre o problema. Cara, o mundo mudou!
Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência; quanto mais forte a pessoa, mais chances ela tinha de liderar (...) Hoje vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos.(p. 21)
A criação da mulher vem sendo de uma manipulação bem engendrada há milênios. Ela é ensinada que precisa ser "querida" pelas pessoas e isto deve ocorrer, independentemente de como ela está se sentindo, do que quer dizer ou fazer. Ela ainda critica o fato de que há inúmeros livros ensinando como as mulheres podem agradar mais aos homens... mas quantos existem sobre como os homens podem agradar as mulheres? O problema já vem da criação recebida.
Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocuparem com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece (p. 27)
 Há muitos mitos e mentiras que cercam o mundo feminista: os de que odiamos homens, não nos depilamos, odiamos sutiãs (ao menos pra mim, esta é verdadeira), que nossas ideias vão corromper "boas meninas" e destruir casamentos. Mas por que será que isto é propagado? Por que há maridos que consideram uma ameaça reconhecer que suas esposas são tão inteligentes quanto eles, ou até mais? Isto também vem de criação: eles aprendem que "para demonstrarem sua masculinidade", devem agir assim ou assado, que a masculinidade é ligada a força física, brutalidade e capacidade de prover sempre - pagar todas as contas, não importa de onde você tirou aquele dinheiro.
O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente. Ensinamos que eles não podem ter medo, não podem ser fracos ou se mostrar vulneráveis, precisam esconder quem realmente são (...) homens duros (p. 29)
 Ensinamos as meninas a se diminuírem, para caberem no mundo masculino e não fragilizá-lo, emasculá-lo. Por quê? Entre essas e outras questões, o livro/palestra relido me renovou as ideias fortes e empoderadoras de Chimamanda. Ela fala de criação da menina e do menino, de situações da vida real e de tantos aspectos que merecem ser debatidos. Há solução, desde que as pessoas se disponham a isso, de ambos os lados. Nota máxima!
NOTA: 5/5
ISBN-13: 9788535925470
ISBN-10: 8535925473
Ano: 2015
Páginas: 64
Idioma: português
Editora: Companhia das Letras

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