26 março 2020

[26.03.20] Quarentena, dia 9: Crônica destes Tempos

No casamento de Rayanne e Clebson, em agosto/2018. Uma lembrança feliz

Acordei ao som estrondoso do hino do Brasil, às seis da manhã, cortesia do vizinho mais ufanista e obcecado do meu condomínio. Que dor de cabeça! Nem é 7 de setembro! Hoje é 26 de março, nono dia da quarentena a que fomos submetidos, em todo o mundo, por conta da pandemia do novo coronavírus. Filho da mãe, levou toda a nossa paz! O vírus também me aborrece muito, há dias.
Fucei as minhas memórias dos últimos quatro meses, em busca de uma lembrança feliz, do meu próprio Expecto patronum, nesse mar de dementadores em que estamos à deriva, na quarentena. Queria mesmo era esquecer a curva ascendente de progressão do vírus, uma lembrança que agora mesclava números a algumas das notas mais altas do cântico-mor do Ipiranga. Preciso deletar da mente o número de infectados e o das pessoas, irmãos e irmãs, que já pereceram nessa guerra. Tudo em que consegui pensar foram as palavras: a gente era feliz, até 2019, e nem sabia!
Você se lembra de poder sair para correr, logo cedo? Aí, do lado da sua casa, nessa via asfaltada que foi registrada pelo departamento de trânsito municipal como via para pedestres das cinco às sete da manhã? Lembra-se de pegar um ônibus lotado, às seis, para só chegar ao trabalho duas horas depois, por causa do tráfego pesado? Talvez você ainda se recorde de como era gostoso ir comprar seu pão quentinho em plena liberdade de ir e vir, no fim da tarde, sem se preocupar com a hora de voltar, ou com o que estaria sendo levado de volta para sua casa na sola dos seus sapatos!
Ainda deve lembrar-se de como é delicioso ir ao cinema com seu amor, ou tomar aquele café com quem você mais ama. Ah, sim, e como é incrível passear na praia, correr na orla, tomar aquele açaí maravilhoso depois da corrida e sentir culpa por dois dias inteiros, porque colocou mais complementos cheios de açúcar do que o próprio creme dietético! Talvez você ainda não sinta falta de tudo isso agora. Pode ser que só venha a sentir na próxima semana ou na seguinte, ou no fim de abril. Talvez só então esteja sentindo uma saudade tão apertada da escola, daquela vivência rotineira, comum ao cúmulo, que esbanja normalidade, uma ausência tão premente, que seu pescoço vai engolfar, precedendo a primeira lágrima. A maior saudade que sinto, de longe, é poder abraçar as pessoas que mais amo.
No meio disso tudo, eu encontrei uma memória feliz, de muito antes. No meu álbum velho, encontrei uma fotografia do enlace de dois grandes amigos, o matrimônio mais esperado de 2018, o casamento que esperei ainda mais do que o meu próprio, porque eles eram muito perfeitos um para o outro, e ainda o são. Mal posso acreditar que passei meses estressada sobre o que vestiria no dia. Aquela noite foi tão bela, eu jamais presenciei uma cerimônia mais linda. Noivo e noiva cantaram, declamaram, declararam e encantaram, em tons de branco, marsala, rosa e azul! Emocionaram até mesmo o coração gelado da minha irmã, o que é um feito! É uma excelente lembrança para ter agora, e vou deixá-la instalar-se aqui.
Nosso mundo está doente agora, e não há vacina ou tratamento definitivo: tudo está em aberto, em estudo e sendo conduzido pelos melhores profissionais, até mesmo por aqueles que tiveram suas bolsas de pesquisa cortadas pelo Governo, que não acredita em ciência. Algumas pessoas têm maior imunidade ao mal, outras têm menos; algumas autoridades agiram rapidamente para controlarem o contágio e outras ainda nem acreditam no potencial do vírus. Alguns idosos se curaram, apesar de serem do grupo de risco; outros, mais jovens, perderam a batalha, mesmo sendo completamente saudáveis. Além de tudo, travamos uma guerra para saber o que esse vírus realmente pretende no nosso planeta, pois ele não parece muito decidido ainda. Enquanto ele se decide, nós precisamos criar memórias.
O ser humano tem o defeito de esquecer muito rapidamente as coisas. Mas vai por mim, caro leitor e cara leitora: não esquece, não. Guarda essas lembranças, arquiva tudo o que estamos vivendo, seja em um guardanapo, diário, celular ou caderno. Anota. Registra. Grava. Escreve. Quando tudo estiver normalizado, ou tão normal quanto a pandemia permitir, quando a sua língua coçar para reclamar da rotina normal de trabalho, das tarefas da escola, das demandas da universidade, esta será uma lembrança dolorosa, porém necessária.
Sobretudo, senta e escreve sobre o que está sentindo agora. Fala e escreve sobre isso todos os dias. Você vai desejar lembrar-se de tudo isto, daqui a quatro meses.

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